
Zelaya cumprimenta o enviado dos EUA, Thomas Shannon, depois da assinatura do acordo que restabelece a democracia em Honduras
O golpe que depôs o presidente constitucional de Honduras tem, praticamente, a duração deste blog. De 28 de junho para cá, algumas coisas ficaram evidentes. A primeira delas é que os golpes militares ainda são possíveis. E a última é a de que uma combinação de fatores políticos e a comunicação faz com que o golpismo não se sustente, mesmo que conte com apoio político e militar interno.
Isto não é, absolutamente, uma consequência de um amadurecimento democrático das elites latinoamericanas. Mesmo neste caso de Honduras, vocês viram como a mídia se comportou favoravelmente aos golpistas. Cheguei a rir, de tão insólito, ao ver a discussão ombusdman na Folha, para saber se os golpistas deveriam ser chamados ou não de golpistas. Ontem mesmo, o bizarro editorial de O Globo sobre a entrada da Venezuela no Mercosul mostra o quanto os ódios ieológicos da direita interferem nas relações institucionais e comerciais entre os países.
Mas existiram, como disse, fatores decisivos.
O primeiro, e maior deles, é que a América Latina tem hoje diversos governos progressistas. Os mais estigmatizados pela mídia são, justamente, os que mais radicalizam a prática de mobilizar e consultar a população. Venezuela, Bolívia e Equador têm resolvido seus impasses internos por meio de plebiscitos. Aqui, nunca consultaram a você ou a mim para saber se criavam a reeleição, ou vendiam as estatais. Só tivemos um, assim mesmo sobre a posse de armas de fogo.
A existência destes Governos, o peso de Governos progressistas – mesmo sem as mesmas características – no Brasil e na Argentina evitou que o governo golpista em Honduras fosse aceito como legítimo de imediato.
Isso criou as condições para que não acontecesse um “resignação democrática” dos Estados Unidos a uma situação de fato. Claro que a presença de Barack Obama na Casa Branca em lugar de George W. Bush faz toda a diferença. Mas que ninguém se engane que isso basta, porque o Governo Obama está acossado pelo conservadorismo interno e não tem a menor intenção(ou condição) de, espontaneamente, suportar as pressões de direita também em relação a sua diplomacia para a América Latina.
Mas houve dois outros fatores, de natureza subjetiva, que interferiram decisivamente para que neste contexto político diplomático de que falei, o triunfo da legalidade democrática acontecesse.
Um deles foi a coragem pessoal do presidente Manoel Zelaya. Poucos governantes depostos agiriam de forma tão decidida. Vocês lembram de como a mídia e diversos governos o chamaram de “imprudente”. Perguntemo-nos, porém, se o desfecho deste golpe seria o mesmo se ele ficasse esquecido em algum pequeno hotel, exilado, protestando contra o golpe. Seguro que não.
Outro fator decisivo foi a ação brasileira. Parabéns ao Itamaraty por ter resistido às pressões a ao desgaste e defendido a difícil situação de ter de abrigar um governante deposto em sua Embaixada, cercada, sitiada, ameaçada e até agredida. E ao Governo por não ter cedido diante da gritaria hipócrita da mídia de que “não temos nada com isso”. Temos, sim, se queremos ser uma nação líder no continente e no mundo, admirada e respeitada como um país democrático e e pró-democracia. Um país não conquista liderança internacional se apenas se omite e vacila. Em certas ocasiões, é preciso ser firme e decidido em defesa do que é legítimo.
Tudo isso deu tempo para a lenta engrenagem dos acordos e da diplomacia funcionar. Ontem, aconteceu o acordo, patrocinado pelo Governo do EUA. Você pode ler aqui os termos em que ele se deu.
O povo hondurenho poderá, agora, com liberdade e sem tropas na rua, dizer o que pensa, nas urnas. E quem, em qualquer ponto do nosso continente, quiser resolver pela força o que deve ser resolvido pelo voto, já sabe, na prática, o poder político já não repousa apenas na ponta de um fuzil.







[...] dias atrás, escrevi aqui que era um engano pensar que desapareceram as condições para aventuras golpistas na América [...]
Na mosca, Brizola!