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Reunião da AIEA, em Viena. Urânio só para quem tem bomba

Nos jornais de hoje há muito mterial sobre supostas sanções impostas ao Irã por conta de seu programa nuclear. Porém, o que estava em jogo ontem era outra coisa. A abstenção brasileira foi um erro, ou melhor, uma cautela contra a exploração política que haveria se tivéssemos votado com Cuba, Venezuela e Malásia. Acompanharam o Brasil na abstenção Afeganistão, Egito, Paquistão, África do Sul e Turquia. Nada a ver, portanto, com “perigosos revolucionários”. Votaram a favor 25 dos 35 países 35 países-membros da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).

A votação tratou do caso iraniano, acenou com sanções econômicas ao país – que Rússia e China já avisaram que vão vertar no Conselho de Segurança da ONU, para onde vai a decisão final – e de uma questão que está passando despercebida: a criação de um banco de urânio admniistrado pelas potências que t~em armas nucleares. Este banco, que ficaria na Rússia – eles jamais aceitariam se fosse em outro país – receberia o urânio “pobre” produzido em outras partes do mundo e o entregaria, mediante pagamento, nos níveis de enriquecimento que jugasse necessários a seu uso como combustível, industrial ou medicinal.

Numa palavra, eles passariam a controlar as quantidades, o preço e a quantidade de todo o material nuclear dos países que onsiderassem “inconfiáveis”. Quem são os “inconfiáveis”: Todos, exceto eles próprios, potências nucleares. Um dos documentos do projeto informa claramente que o objetivo é o “fornecimento ao mundo de uma electricidade limpa, oferecendo às nações sem ciclo de combustíveis um acesso ao combustível nuclear, interessante em preço e fiável, em troca da sua obrigação de renunciar ao desenvolvimento das tecnologias de enriquecimento e de reciclagem”.

Ora, desenvolver tecnologia de enriquecimento de urânio não é produzir material para bombas. O urânio natural contém 0,7 por cento de átomos U-235, contra 99,3 por cento  de átomos U-238. Para servir como combustível nuclear em usinas eléticas, a parte de átomos U-235 deve ser aumentada em 3 a 5 por cento. Para se fazer isto, o urânio deve ser primeiro purificado e transformado em gás. Passando este gás por uma grande série de centrifugas, retira-se alguns dos átomos U-238 mais pesados, num processo que é longo e consome uma quantidade imensa de energia. Os riscos deste processo são semelhantes aos de qualquer indústria química porque a radiação é muito fraca. Este urânio não eserve para fabricar bombas nucleares.

Para isso, é preciso que o grau de pureza chegue perto de 90 por centto – é de 0,7%, naturalmente, lembram? – o que exige instalações imensas e equipamentos sofisticadíssimos. E, sobretudo, tempo, porque seriam necessárias milhares de centrífucas, trabalhando continuamente por anos para fabricar quantidade suficiente para um engenho nuclear com capacidade bélica efetiva.

O caso é que o processamento de urânio para uso não-bélico desenvolve tecnologia e conhecimento para aprimorar o enriquecimento ao ponto de dominar todo o processo. E é por isso que não querem que tenhamos nem isso.

O Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, do qual o Irã é signatário desde 1968 – o Brasil nunca quis assinar, mas Fernando Henrique o fez, há dez anos – prevê o fim das armas nucleares das grandes potências. Você viu isso? A parte deles não é cumprida, a nossa tem que ir além do que está estabelecido.

O Brasil precisa de um programa nuclear sólido. Pacífico, sim, mas capaz tecnologicamente. Criamos, esta semana, na Câmara de Deputados,a Frente Parlamentar Mista em Defesa do Programa Nuclear Brasileiro – PNB. O objetivo é discutir o papel estratégico da energia nuclear para o desenvolvimento do país e garantir recursos financeiros, humanos e materiais para o desenvolvimento e ampliação do programa. Participo dela, ao lado dos deputados Eduardo Gomes (PSDB-SP); Pedro Eugênio (PSDB-TO); Jô Moraes (PCdoB-MG); Ciro Pedrosa (PV-MG); Arnaldo Jardim (PPS-SP) e Ribamar Alves (PSB-MA).

Como se v~e, este não é um tema partidário ou ideológico. É uma questão essencial para o Brasil, que precisa ter o controle do ciclo do ur:anio. Estamos chegando ao limite do aproveitamento dos rios para a geração de energia e já passamos do limite em matéria de geração de eletricidade por uso de combustíveis fósseis. Se tivermos o conhecimento de ponta, podemos usar essa fonte nuclear de maneira segura e responsável.

Não precisamos de babás que nos sirvam a “papinha de urânio” que quiserem, ao preço que quiserem e quando quiserem.

Postado por 2 comentários

2 Comentários até agora.

  1. Artur says:

    Ahmadinejad tem o direito de ter armas para se defender.
    O mundo sabe o que pode vir de israel.

  2. Jonas says:

    Concordo com vc, Deputado. Eu entendo o posicionamento do Brasil mas, para mim, deveria ter votado contra. O Tratado de Não-Proliferação Nuclear NUNCA foi cumprido pelas potências nucleares. Só se vê imposições aos outros, mas eles não abrem mãos das suas armas. Aí fica difícil negociar. Eu defendo o uso pacífico da energia nuclear, mas a exigência do cumprimentos dos tratados deve ir em mão-dupla. Por sinal, países detentores de bomba atômica, como EUA e Israel, por exemplo, são responsáveis por boa parte dos grandes conflitos que estamos acostumados a ver ultimamente e mostraram ser muito mais perigosos, truculentos e sanguinários no uso da sua força militar do que os países que eles acusam de “terroristas”. Exemplos não faltam: Afeganistão, Guerra do Iraque, banho de sangue de civis palestinos etc…Sendo por isso muito mais perigoso que tais países detenham um armamento de tamanha potência. Não defendo que, em contrapartida, os outros países construam armas atômicas, devemos exigir apenas que o Tratado seja cumprido pelas potências nucleares e que não continue a ser sistematicamente desmoralizado como vem sendo.

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