Gilberto Felisberto Vasconcellos
Ecologia é o saber sobre as interrelações entre os seres vivos e o ambiente, mas a matéria-prima, a base, o fundamento, o concreto, é o próprio ambiente físico, incluindo o trabalho do homem. Que este ponto fique claro: a ecologia é um discurso sobre o meio ambiente, portanto pode ser de direita, de esquerda e até reacionária.
Em 2010 o tema central da eleição envolve a questão do meio ambiente e o capitalismo. Resulta daí a candidatura de Marina pelo PV, partido que foi implacavelmente criticado por Glauber Rocha em seu último filme, A Idade da Terra, por sinal um belíssimo filme sobre a natureza seguindo a trilha getuliana de Humberto Mauro.
A candidatura de Marina descende de Fernando Gabeira, que trouxe o tema “verde” da Europa e, desde a década de 70, foi com a bandeira da ecologia que fez o seu pecúlio eleitoral no Rio de Janeiro. Na verdade, foi muito mais esse assunto do que o embaixador norte-americano seqüestrado ou o exílio sueco.
O assunto natureza não foi, no entanto, nenhuma proeza pioneira de Fernando Gabeira. Lembremo-nos do nosso romantismo que inventou o verde amarelo e a crítica ao latifúndio feita por Darcy Ribeiro, ou seja, a crítica ecológica anti-capitalista a partir do viver indígena e da expansão européia colonialista no século XXI.
A antropologia de Darcy Ribeiro se destaca, dentre todas as antropologias do mundo, por trazer em sua pesquisa etnológica a natureza física dos trópicos, com o detalhe de que o criador dos Cieps não era um falsário da empiria. Viveu junto com os índios uns 5 anos por causa de sua amizade com o marechal Rondon. Agora escrevendo isso, eis que me dou conta de que no ano de 1986 candidataram-se a governador do Rio de Janeiro Darcy Ribeiro e Fernando Gabeira, a quem desde então ainda não foi perguntado: – meu caro, quantos nomes de cipó você conhece?
Eu desconfio o câncer de Darcy Ribeiro voltou em 1986 por ter perdido as eleições no Rio de Janeiro, que foi fatal para a candidatura de Leonel Brizola a presidente em 1989. Eu desconfio também que Darcy Ribeiro perdeu muito voto na juventude para Fernando Gabeira, que se aproveitou da rubrica “candidato jovem e ecológico”.
Curiosamente Darcy Ribeiro significa na literatura brasileira, ao lado de seu amigo Paulo Mendes Campos, a questão intelectual do adolescente. O jovem no Rio de Janeiro lamentavelmente não viu Darcy Ribeiro porque não lhe foi dado conhecer a juventude do pensamento dele, expressão de sua vida livre, desbundada, corajosa e ousada. Então, diante do que aconteceu de 1986 para cá, vale perguntar: qual é a ecologia de Fernando Gabeira? Essa pergunta se impõe porque a candidata Marina do PV pertence ao mesmo campo semântico, é o reflexo do reflexo do reflexo, porque seria erro de avaliação considerar original a campanha ecológica de Fernando Gabeira, o qual, em termos de dialética da natureza, está mais para o Banco Mundial do que para Engels.
Ecologia de Butique
Antes de Fernando Gabeira marketizar o “verde” na política contra o “vermelho” trabalhista, antecipando o seu xará Fernando Collor em alguns tiques de telenovela, ele havia publicado o livro O Que É Isso Companheiro? no mesmo ano do romance Riverão Sussuarana de Glauber Rocha, que retomava João Guimarães Rosa na geografia do sertão. A mídia e a crítica literária trataram Fernando Gabeira como um gênio, no mesmo patamar de um Graciliano Ramos, enquanto o riverão glauberiano passou em brancas nuvens, sem crítica e sem público ledor. Acredito no entanto que não foi apenas motivado por isso que Glauber Rocha reagiu: Fernando Gabeira é tão anti-marxista quanto Caetano Veloso.
Até então prevalecia a aura heroicizante do seqüestro do embaixador norteamericano, de modo que Fernando Gabeira era situado no campo da esquerda, marxista, socialista, comunista. Mas não era nada disso; na verdade ele trouxe da Europa a mochila colonizada cheia de clichês pós-modernos da crítica ao estalinismo feita pelo maio de 68 francês, que culminou na idiotice de afirmar que o Gulag na União Soviética surgiu por causa do livro O Capital de Karl Marx.
De olho do prestígio midiático da tropicália, Fernando Gabeira contrapôs o cuecão do partidão à tanguinha na praia. O alvo de sua jogada, mais do que os dogmatismos estalinistas, era se opor ao marxismo como crítica política e ao nacionalismo anti-imperialista de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.
A lógica butique, a que o corpo de Fernando Gabeira estava associado na vitrine da moda, perturbou em 1986 menos Leonel Brizola do que Darcy Ribeiro, que psicologicamente inibido não atacou com pedras na mão a campanha “verde” da TV Globo para seduzir a juventude. No Rio de Janeiro de 1986 eram duas frentes contra Darcy Ribeiro de que se valeu a estratégia da TV para cortar o caminho de Leonel Brizola à presidência da República: o cruzado de Sarney e a tanguinha pluralista de Fernando Gabeira.
O Pacotaço do Imperialismo
Retornemos então à pergunta: qual é a de Fernando Gabeira? É um pacotaço com feminismo despolitizado, bagulho sem transcendência, cidadania desvinculada da opressão de classe, desmobilização do pobre pela auto-ajuda e voto sob o controle da grande mídia.
Instrumento das ONGs e dos Bancos Internacionais, a ecologia pós-moderna foi ensinada nas universidades para suprimir o estudo do marxismo: Marx está morto, é o fim da história, o adeus à busca da totalidade, a recusa da análise causal dos fenômenos sociais, a consagração do hedonismo burguês, a dissipação da culpa do privilegiado social e a euforia da telenovela em torno do triunfalismo capitalista com o colapso da União Soviética e a globalização do capital.
A ecologia pós-moderna oculta a depredação do meio ambiente feita pelo poder do capital e os combustíveis fósseis lançando dióxido de carbono na biosfera desde a revolução industrial. Afinal, a devastação do meio ambiente não é só um processo ecológico, mas um processo social e econômico. O pós-modernismo das ONGs não responde às causas da natureza degrada com chuva ácida, efeito estufa e cataclismos do mar. Em seu propósito de combater o marxismo, as ONGs pós-modernas e os seus ideólogos forneceram uma visão falsa e caricata do meio ambiente, separando a-dialeticamente natureza e trabalho.
O PV é conivente com o poder econômico das corporações agrobiusiness, os fabricantes de pesticidas e herbicidas (caso da Roundup da Monsanto), os fertilizantes sintéticos com nitrato poluindo a água, provocando câncer no aparelho digestivo, enfim, os causadores das enfermidades ecológicas: erosão do solo, contaminação química e monocultura. O que o PV não fala, de olho no custo de cada campanha eleitoral, é que as sementes geneticamente modificadas consolidam o controle das multinacionais na agricultura.
A ecologia PV está em paz com a revista Veja, a ponta de lança dos conglomerados multinacionais responsáveis pela defesa da economia de escala do capital monopolista. Trata-se de um sistema agroalimentar e de saúde (ou melhor, de doenças) que opera integrado internacionalmente. Em quantos países a Cargil banca os partidos verdes? E a Philip Morris que produz tabaco e comida? É óbvio que os governos nacionais não controlam esse sistema mundial de comida, o qual tem horror da reforma agrária e da agricultura familiar com pequenas propriedades. Por não considerar a degradação do meio ambiente como conseqüência do processo social econômico, o PV não se preocupa com a existência do latifúndio nem com o monopólio televisivo, mas é possível encontrar alguns de seus parlamentares deitando falação sobre a biotecnologia e a engenharia genética patrocinadas pela Monsanto e DuPont. É a panacéia da biotecnologia para alimentar o mundo inteiro, o que acaba por converter a agricultura dependente da petroquímica.
É preciso não esquecer que Karl Marx foi um dos maiores pensadores ecológicos da história da humanidade. Sua oposição ao poder do capital tem como uma de suas causas a depredação da natureza feita pelo lucro, que está intimamente associada à opressão de classe social. Isso significa que é impossível preservar a natureza sob a vigência do capitalismo. Existe a metabólica interação entre o homem e a terra. E essa interação é histórica. O que é o progresso na agricultura capitalista? É a atitude de roubar o trabalhador e de, simultaneamente, roubar o solo, ou seja, as duas fontes originais de toda riqueza: o solo e o trabalho, a terra e o corpo. A ecologia trabalhista coloca em primeiro plano a comida para o povo, e não a comida para o lucro.
A agricultura do lucro é imediatista, arrebenta a fertilidade do solo com nutrientes venenosos originalmente produzidos pela indústria da guerra. Moral da história: o capitalista não está nem aí para a saúde e a duração de vida do trabalhador. Por conseguinte, a ecologia proletário-trabalhista é a conexão entre ecodestruição e homodestruição. Evidentemente Marx e Engels não disseram tudo sobre todas as coisas. O nível de devastação do meio ambiente a que se atingiu com a expansão financeira do capitalismo neoliberal põe em risco a natureza e a espécie humana. Neste século XXI a natureza é o proletariado, o projetado coveiro do sistema capitalista, embora a eliminação deste far-se-á por agentes sociais e políticos, ou seja, depende da luta de classes.
Brasil, Paraíso da Monsanto
Que se compare a ecologia burguesa do PV (que não é diferente do bucolismo dos deputados da UDR latifundiária) com o zapatismo no México, que protestou contra a NAFTA e as patentes do agrobusiness, as quais por sua vez prepararam a cama de José Serra, o candidato do PSDB comprometido com a agricultura tóxica fabricante de remédios. Para os tucanos, a natureza é um balcão multinacional de negócio, a Montsanto no prato é a comida geneticamente manipulada. Culinária Cargil. Sobremesa Philip Moris. Tempero Mitsubish. As multinacionais controlam todos os setores da produção de comida: sementes, adubos e pesticidas. A questão ecológica fundamental no Brasil é a existência do latifúndio, o qual expulsa os trabalhadores do campo para as favelas e periferias das cidades. Destarte, um dos objetivos da reforma agrária é a implantação de pequenas propriedades para eliminar o uso de fertilizantes e pesticidas fabricados pelas corporações multinacionais.
Marx achava que o capitalismo iria ser eliminado antes que a natureza pudesse ser destruída. Não foi. O capitalismo imperialista dominou o mundo inteiro. Mas uma coisa é certa: sem a política centrada nas relações de trabalho, a preservação do meio ambiente é mistificação de direita. A verdadeira ecologia é o regime social do trabalho, com política trabalhista e socialista. Isso pode ser verificado no Brasil das últimas décadas com o estrago da natureza feito pelo neoliberalismo, simultaneamente à superexploração do trabalho e à marginalidade crescente da população. A abordagem profunda do meio ambiente exige a posição nacionalista, a exemplo da “escola da biomassa” que se opõe desde a década de 70 às ONGs. Essa escola ecológica da biomassa, representada por Bautista Vidal e Marcello Guimarães, cuja diretriz solar é a planta armazenadora de energia nos trópicos, tem advertido que a catástrofe do meio ambiente é o latifúndio multinacional produzindo álcool e óleo combustíveis.
A ecologia trabalhista de Darcy Ribeiro, inspirada no marxista Oswald de Andrade, é a denúncia contra a colonização anti-ecológica, que dá no tucanismo verde de tratar a natureza como uma mercadoria, ou seja, a natureza para ser vendida é privatizada.
Marxismo e Natureza
Existem inter-relações causais entre a crise da natureza (ameaçada em seu equilíbrio termodinâmico) e a emissão de CO2 com a queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo) nos últimos 300 anos de capitalismo industrial.
A abordagem trabalhista e socialista acerca do meio ambiente deve começar pelo binômio energia-ecologia dentro do sistema capitalista. A questão que se coloca é a seguinte: a mudança de matriz energética do fóssil ao hidrato de carbono exige mudança de regime social, ou é possível coexistir a energia da biomassa e o sistema capitalista? Vários aspectos estão aí envolvidos, a começar da composição química: é óbvio que em uma cidade como Nova York, Tóquio ou São Paulo, com carros a álcool e óleos vegetais é melhor para a atmosfera do que com carros movidos a gasolina e óleo diesel. Até José Serra, em cujo partido o capital monopolista internacional orienta o ecocídio na periferia do capitalismo, está preocupado com o colapso do ar e do clima numa cidade como São Paulo. A solução imediata é substituir a gasolina pelo álcool menos poluidor, porém não basta a mudança da matriz energética, se esta for acionada pelos latifundiários e usineiros multinacionalizados. Essa é a posição dos partidos de direita: o álcool-combustível produzido pelos usineiros e multinacionais, os biocombustíveis destinados à exportação. A mudança da matriz energética é um imperativo de ordem ambiental, pois se continuar a emissão de CO2, a atmosfera entra em colapso comprometendo a vida de todos, pobres, ricos, proletas, burgueses. Isso é a verdade do nosso tempo, mas o traço diferencial de uma ecologia trabalhista incide na produção de álcool-combustíveis em pequenas propriedades com reforma agrária para ocupar o território nacional. Essa é a diretriz que já foi fornecida pela escola da biomassa (Marcelo Guimarães e Bautista Vidal) a uma política ecológica e energética do PDT, o qual não deve ficar adstrito e seduzido pelo imediatismo do Pré-sal, ou seja, pelo fetichismo do petróleo.
É óbvio também que a energia por si só não altera o regime social, ou seja, as relações de trabalho. O motor da história não é a energia, e sim a luta de classes, tanto isso é verdade que na história da humanidade o escravismo e o feudalismo existiram sob uma mesma matriz energética, assim como a sociedade comunista foi concebida por Marx sob a égide do carvão mineral. Em seu tempo Marx não conheceu o petróleo. Ele assinalou que seria possível existir sociedade comunista movida pelo carvão mineral da indústria, não obstante o caráter energicamente concentrado da mina de carvão mineral. Em sua obra não é dedicado lugar especial para a discussão sobre a energia, porque o esgotamento da energia fóssil não aparecia como problema no horizonte da época histórica em que viveu. Depois veio a fase da exploração do petróleo coincidindo com a emergência do capital monopolista, época em que apareceu a primeira revolução socialista na história: a revolução proletária de 1917 na Rússia.
Nenhum pensador marxista dessa época, Lênin, Trotsky, Bukarin, Plekanov, etc, defendeu a idéia de que o uso do petróleo seria incompatível com a construção da sociedade comunista. Depois da Segunda Guerra Mundial, com o aparecimento em 1945 da corporação multinacional em escala planetária, também não nos deparamos com nenhum pensador marxista (Baran, Sweezy, Marcuse, Luckács, Che, Fidel, Sartre, Mao, Mandel, e até Gunder Frank) que tivesse sublinhado o empecilho de se construir uma sociedade socialista tendo por alicerce energético o combustível fóssil do petróleo. Este foi usado para desenvolver o nível das forças produtivas no regime capitalista, portanto poderia ser também utilizado na sociedade socialista com a mudança nas relações de produção.
As energias nucleares, pouco antes da Guerra Fria, foram construídas menos com o propósito de substituir a finita energia fóssil do que com objetivo bélico e militar. A “época de ouro” do capitalismo, sob a égide do imperialismo norteamericano (de 1945 a 1960), não se defrontou com o problema do esgotamento do combustível fóssil, o qual somente veio dar sinais de que estava em fase terminal em meados da década de 70 com o embargo da OPEP. Mesmo nessa época não encontramos pensadores marxistas que tivessem assinalado a incompatibilidade do petróleo com o regime socialista, apenas a ênfase de que o uso capitalista do combustível fóssil estava arrebentando com a biosfera, mas não se fazia a pergunta crucial: qual a modalidade de energia que fundamentará o socialismo? Mas não é preciso esperar acontecer essa transformação social para ir implementando aqui e agora as ecológicas e pequenas destilarias a álcool, produzindo simultaneamente energia renovável e limpa, comida e adubo orgânico. Essa é, do ponto de vista trabalhista, a única alternativa às plantations multinacionais dos biocombustíveis. Trata-se da única alternativa, por ser a energia vegetal descentralizada, de fixar o homem no campo, ocupando o território com trabalho para evitar as emigrações rumo às cidades faveladas.
Quem é o Dono do Sol?
Eu não diria que algo significativamente novo aconteceu como marco na acumulação de capital do imperialismo em meados da década de 70, mas demonstração de miopia analítica seria não perceber o que significa a exaustão do petróleo, a energia que foi a base do desenvolvimento industrial desde o final do século XIX, assim como a necessidade de sair o quanto antes da matriz fóssil para outra matriz: nuclear ou energia vegetal da biomassa, seja com sociedade capitalista ou socialista. É um perigo no entanto a alternativa nuclear, pelo menos a curto prazo, em um mundo convulsionado por conflitos militares, além de que ninguém sabe o que fazer com o resíduo da radioatividade. Então, diante do ocaso do combustível fóssil, só resta a economia do sol, abastecida por inesgotáveis e renováveis fontes vegetais de energia.
A miragem de auto-insuficiência do petróleo do Pré-Sal não deve obnubilar a doutrina trabalhista e socialista, enveredando equivocadamente para uma posição imediatista, desdenhando a vocação energética da biomassa nos trópicos. O problema de se utilizar essa vocação da natureza dos trópicos esbarra no tipo de regime social oligárquico submetido ao domínio externo. A verdade é que a produção de álcool e óleos combustíveis em latifúndios multinacionais constitui uma ameaça ecológica e um agravamento da estrutura social desigualitária.
As plantations multinacionais de biomassa são um fator de desemprego para a população rural, que será obrigada a continuar emigrando para as favelas e periferias das cidades. A única posição compatível com o ideário trabalhista e socialista é a produção de álcool e óleos combustíveis em microdestilarias, fazendo a reforma agrária e ocupando o território nacional. Equívoco seria o trabalhismo, na área energética e ecológica, não combater os usineiros latifundiários, que são os tradicionais parceiros do capitalismo multinacional. A ameaça ecológica está no desenvolvimento do capitalismo multinacional, o inimigo da humanidade e das espécies de vida e da capacidade da terra reproduzir-se.
Moinho de Degradar a Natureza
A ecodestruição é capitalista. Por isso, uma ecologia informada pelo trabalhismo anti-imperialista tem de combater a aliança do latifúndio tóxico com o fármaco multinacional, principalmente na periferia onde o capitalismo é uma sucata anti-natureza. O movimento sem-terra que, por injunções oprimidas de classe social, é hoje quem faz a crítica ecológica mais consistente: a produção de comida envenenada (com fertilizante e pesticidas nitrogenados) é produzida pelas mesmas corporações fabricantes de remédios. A agroquímica multinacional latifundiária está conectado à devastação gástrica do organismo humano, por conseguinte a mudança ecológica na agricultura exige a transformação no regime social de propriedade.
O inimigo da natureza é o inimigo do corpo humano. Produzida pelo latifúndio exportador, a fome é anti-ecológica, assim como as deploráveis condições sanitárias das favelas e periferias. Todas as cidades brasileiras fedem a bosta e até o céu virou esgoto com o mercado livre. Marx achava que o capitalismo iria ser eliminado antes de comprometer a existência da natureza. A causa da crise ecológica é o capital, ou seja, o poder econômico dominante da sociedade burguesa. A relação do capital com a natureza não recebeu atenção especial de Marx porque a crise ambiental não estava ainda madura. Mas ele foi enfático ao acentuar que a humanidade é parte da natureza e vive desta, portanto a sociedade desigualitária e injusta é necessariamente adversária da natureza.
Quando se fala em natureza, está implícito o corpo ou a saúde do corpo. Ecologia refere-se à inter-relação entre seres vivos e seu ambiente. É a organização da vida como um todo. Qual é a contradição ecológica do capitalismo hoje? O capitalismo está arruinando as próprias condições naturais de produção (terra, ar, água e o corpo do trabalhador) para obter lucro. Roundup, o herbicida fabricado pela Monsanto, a multinacional que tem o maior carinho por José Serra, é um obstáculo no mundo inteiro à agricultura diversificada.
A ecodestruição acompanha a busca do lucro. E as tarefas imediatas da luta ecopolítica? O imperativo da acumulação de capital passa por cima do cuidado com o ambiente. A natureza tem menos importância do que a acumulação de capital. O detalhe é que na sociedade subdesenvolvida o trabalhador é mais explorado em seu trabalho, assim como a natureza é mais estropiada. Que rio no Brasil não é uma lixeira?
O Partido Verde nunca viu na existência das multinacionais um fator de ecodestruição. Para o PV burguês, as multinacionais – os agentes modernos do poder econômico – nunca foram consideradas uma epidemia ecológica. Os parlamentares “verdes” não têm o menor problema com o status quo da agricultura, tal qual a patota da UDR. Ambos separam o regime da propriedade da terra e a questão ambiental. O Banco Mundial, o inimigo da reforma agrária, preconiza o uso de método anti-concepcional. A ecologia do PV é pró-capitalista, a favor dos métodos devastadores da SW, FT, Armour, Conagra, Montsanto; afinal, essas multinacionais podem ajudar a campanha de Fernando Gabeira e César Maia no Rio de Janeiro, portanto eles aplaudem o capital monopolista na agricultura.
O sistema de comida e de saúde é cada vez mais integrado e movido pelo lucro multinacional. Da semente, do adubo ao remédio na drogaria. Essa integração é vertical e horizontal em escala mundial. Aquilo que Gunder Frank enfatizou desde a década de 60 está hoje escancarado: a ilusão de que o capitalismo estenderá o progresso à maioria da população, sobretudo com a “flexibilização”, que é a cumplicidade entre o Estado e o capital globalizado. No PV, tal qual na casa de campo de dona Margareth Tatcher, não existe futuro além do capitalismo, assim o único modo de existência possível é o capitalista. Não existe outra alternativa. Por outro lado, existe a questão, posta depois da morte de Leonel Brizola, como tornar o PDT relevante na sociedade brasileira? Ou o PDT não terá mais condições de renascer ou reerguer-se depois que o seu líder morreu? O desafio do trabalhismo, em sua essência anti-imperialista desde 1945, deve colocar o presente em perspectiva, sem desviar-se do que foi mentalizado como o fio da história, sobretudo quando se trata de formular uma programática ecológica. E, nesse aspecto, a contribuição da escola da biomassa é fundamental na conjunção do meio ambiente com o regime de trabalho, ao ter roteirizado a produção de energia limpa e descentralizada feita em pequenas propriedades, que é um procedimento eco-energético oposto ao das plantations (latifúndios) oligárquicas e multinacionais. A revitalização do trabalhismo (atento ao perigo suicida de um burocratismo organizacional e de um anti-intelectualismo reacionário exige necessariamente a incorporação do pensamento de Marcelo Guimarães e Bautista Vidal sobre a natureza e o trabalho. É esse o caminho dos trópicos ao “socialismo moreno”
Ecocídio e Capitalismo
A ecologia trabalhista está vinculada à noção de totalidade. A necessidade de superar os combustíveis fósseis deve ser acompanhada da mudança do regime de propriedade e das relações de trabalho. Caso contrário, a mudança da matriz energética trará, como dizia Darcy Ribeiro, a “modernização reflexa” tal qual a dos combustíveis fósseis.
É preciso mostrar, por outro lado, que a ecologia pós-moderna suprime a linguagem da luta de classes, a qual foi substituída pela política de “identidade”, ou seja, desapareceu a classe como força política. Do ponto de vista internacional, o Partido Verde viu na queda da URSS o atestado de óbito do socialismo. Essa maneira safada de anunciar o ocaso da luta de classes não é diferente do presidente da Fiesp ao ingressar no topo do partido socialista de Ciro Gomes. Dois ou três dias depois do golpe, Gunder Frank escrevia para o jornal The Nation nos Estados Unidos: o golpe de Estado de 1964 foi dado pela burguesia paulista da Fiesp. Quem deu o golpe de 64 foi a Fiesp. A ditadura de 64 foi executada pela Fiesp e planejada em Washington. Os militares fizeram a cirurgia da Fiesp, segundo o historiador Nelson Werneck Sodré que conhecia as Forças Armadas.
Satélite da acumulação de capital do imperialismo, a Fiesp funciona como o agente da metrópole nacional que coloniza todas as demais regiões do país. É difícil hoje apontar no cenário político quem não tenha o pé fincado na Fiesp, e não apenas em São Paulo, por sinal a região do país que se deu bem com o golpe de 64, diante do qual os intelectuais paulistas, como dizia Darcy Ribeiro, não conseguem fazer a crítica radical da Fiesp, a parceria do capital estrangeiro que na avenida paulista é conhecida como Fiespão.
O simulacro da esquerda – ou a esquerda carente de fundamentação teórica e de convicção política – se neoliberalizou com as receitas das ONGs criadas pelo Banco Mundial. A flexibilização do capitalismo, o capitalismo da flexibilização decretou a obsolescência da força política trabalhista. Vamos abrir champanhe, vamos comemorar a morte de Leonel Brizola. Como quase tudo o que acontece na periferia do capitalismo, Fernando Gabeira é um repercutor de uma lógica financeira dos centros culturais metropolitanos. Essa lógica hoje ganhou o batismo de “pós modernismo”, que é uma doutrina do Banco Mundial, o criador das Ongs ecológicas a fim de atacar o marxismo e a liberação nacional da América Latina, Ásia e África.
Nos últimos trinta anos, se analisado o que sucedeu no Brasil, mídia, parlamento e universidade, não há dúvida de que a ideologia dominante do centro financeiro do capitalismo foi de uma enorme eficácia operativa, não obstante as décadas de setenta para cá terem sido de maré baixa na acumulação de capital. A ecologia de Fernando Gabeira é pós-moderna porque se circunscreve aos aspectos superficiais e fenomenológicos da devastação ambiental produzida pelo capitalismo monopolista. Não se trata de reformismo ecológico (quem é contra coleta de lixo, bosta no cano, água potável, praia sem cachorro, ausência de barulho?) e sim da mídia que elide o caráter anti-ambiental do capitalismo, portanto é um verde pró-tucano como se a corporação multinacional fosse proprietária legitima do sol.
A natureza para Fernando Gabeira não tem nada a ver com as relações sociais de produção, é uma natureza abstrata de cartão-postal que independe do regime social, por isso não existe o conceito de classe social em seu piquenique, assim como a sociedade não esta antagonicamente dividida entre exploradores e explorados. Com o conceito de classe social eliminado, coloca-se em seu lugar, segundo a agenda neoliberal das ONG’s, o primado do gênero sexual gaylésbicotraveco, como se a pertinência da “identidade” fundada em gênero sexual fosse mais importante do que a inserção social do individuo. A ecologia Daslu convive harmonicamente com o valor de troca, o verde é o verde do dólar, assim como o que aparece na televisão é mais real do que o que acontece em nossa vida. A ecologia do capitalismo videofinanceiro nunca põe em questão o imperialismo na reprodução do desenvolvimento do subdesenvolvimento. O próprio poder é apresentado como uma realidade polimórfica, que se dissipa e perde qualquer referencialidade central e definida. É este o engodo da flexibilidade ecológica: o poder está em todo lugar e em nenhum lugar.






Olha ai Gilberto, o Bruno 14 anos, lendo, entendendendo, generosamente só pedindo um resuminho. Bacana. Camaradinha e a crise de responsabilidade, compromisso, de idéias, do nossso PDT, com a hegemonia da visão clientelista, fisológica, de pensar atacanhado, que triste. Década de 80, reunião na sede, Sete de Setembro, além da Sandra e outros trabalhadores da Brizolandia, Darcy, Abdias, Nelson Werneck, Abdias, Antonio Pereira da Silva, Ronald Barata, Brandão Monteiro Secretário do Transporte), Eduardo Costa (Secretário de Saude), Caó, Mario Dias, Juruna, Jaques D’Ornellas, Eduardo Chuai…….´Meu querido camarada, precisamos nos reunir, fazer um grande debate. A raiz do PDT é jequitibá. Diz ai. Forte abraço. Amadeu.
Muito intereçante mais e muito grande talvez um resumo, tenho 14 anos e amei este texto!!!!
Muito bom texto!
Adorei, Giba é demais!
Abs do Lúcio Jr.
Mais uma aula do Prof. Gilberto, sensacional !!!