Brizola em 1961

Paulo Nogueira Batista Jr -29/6/2004

A morte de Leonel Brizola é um marco. Não é toda hora que temos um grande morto para enterrar e reverenciar. Verdade seja dita: a política brasileira é um deserto só comparável ao do Saara. “Os verdadeiros indivíduos são raros nesses tempos de domesticação universal”. Maurice Barrès Que grande brasileiro morreu na semana passada! Escrevi a seu respeito na Folha de S.Paulo na última quinta-feira (24), mas quero voltar ao assunto hoje. A morte de Brizola é um marco. Afinal, não é toda hora que temos um grande morto para enterrar e reverenciar. Verdade seja dita: a política brasileira é um deserto só comparável ao do Saara. Poucos se salvam. O que prevalece é o despreparo, o oportunismo, o carreirismo. Ao longo da vida tenho conhecido políticos de diferentes partidos e diferentes orientações. Salvo um ou outro caso, posso lhes dizer, com toda a franqueza: falar em interesse nacional com essa gente é fazer papel de Quixote. Por isso mesmo, nos últimos dias, tenho assistido com interesse arregalado a todas as reprises de entrevistas e depoimentos de Brizola de que tenho notícia. Vale a pena. É uma satisfação escutá-lo. Não é qualquer um que nos fala. O que salta aos olhos, imediatamente, é a sua imensa e esmagadora superioridade em relação aos políticos comuns. É lamentável que Brizola tenha sido tão boicotado e tão vetado em vida, que a sua voz não tenha tido o alcance merecido. Não foi por acaso, evidentemente. Os motivos desse boicote são conhecidos. Brizola tinha estilo e grandeza. Fazia um uso devastador da palavra. Sabia emocionar. “Basta-me um microfone para derrotar os adversários”, dizia. Era uma ameaça permanente à coligação de mediocridades que domina a política e a economia neste país. “Um romântico extraviado na política”, escreveu Carlos Heitor Cony. Romantismo? Talvez. Mas a palavra que, a meu ver, sintetiza as suas qualidades é outra: fibra. Fibra é o que Brizola demonstrou ter em diversas ocasiões. Em 1961, por exemplo. Foi um grande momento da história brasileira. Com a renúncia de Jânio Quadros, armou-se um golpe. A junta formada pelos ministros militares, com apoio de forças civis, havia resolvido simplesmente rasgar a Constituição do país e impedir a posse do vice-presidente João Goulart. O golpe só não vingou por obra, coragem e tenacidade de um brasileiro: o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola. Brizola tomou conta da Rádio Guaíba, e pôs “a alma para fora”, como lembrou em depoimento recente à TV Cultura. O seu pronunciamento, transmitido da sede do governo, o Palácio Piratini, em 28 de agosto, começou assim: “Peço a vossa atenção para as comunicações que vou fazer. Muita atenção. Atenção, povo de Porto Alegre! Atenção Rio Grande do Sul! Atenção Brasil! Atenção meus patrícios, democratas e independentes, atenção para estas minhas palavras! (…) O Palácio Piratini, meus patrícios, está aqui transformado em uma cidadela, que há de ser heróica, uma cidadela da liberdade, dos direitos humanos, uma cidadela da civilização, da ordem jurídica, uma cidadela contra a violência, contra o absolutismo, contra os atos dos senhores, dos prepotentes”. (…) “Nós não nos submeteremos a nenhum golpe, a nenhuma resolução arbitrária. Não pretendemos nos submeter. Que nos esmaguem! Que nos destruam! Que nos chacinem, neste Palácio! Chacinado estará o Brasil com a imposição de uma ditadura contra a vontade de seu povo. Esta rádio será silenciada tanto aqui como nos transmissores. O certo, porém, é que não será silenciada sem balas”. (…) O que Brizola pretendia, de imediato, era conclamar os gaúchos a sair às ruas para resistir ao golpe: “Não desejo sacrificar ninguém, mas venham para a frente deste Palácio, numa demonstração de protesto contra essa loucura e esse desatino. Venham, e se eles quiserem cometer essa chacina, retirem-se, mas eu não me retirarei e aqui ficarei até o fim. Poderei ser esmagado. Poderei ser destruído. Poderei ser morto. Eu a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. Não importa. Ficará o nosso protesto, lavando a honra desta Nação. Aqui resistiremos até o fim. A morte é melhor do que vida sem honra, sem dignidade e sem glória”. (1) O resultado foi fulminante. Dezenas de milhares de pessoas se aglomeraram na praça em frente ao Palácio Piratini. Começara a resistência que frustraria os planos golpistas. A solidariedade ao governador espalhou-se pela cidade, pelo Estado e depois pelo Brasil. Houve até o seguinte fato inusitado: dirigentes do Grêmio e do Internacional assinaram um manifesto conjunto de apoio a Brizola! O Brasil tem sido governado, nas últimas décadas, por uma geração de pigmeus, desfibrada e pobre de espírito. É sintomático, por exemplo, que uma figura como Fernando Henrique Cardoso, um político tão pouco identificado com o Brasil, que nutre um desprezo mal disfarçado pelo país, tenha ocupado, por oito anos, a Presidência da República. Com que náusea um grande político como Brizola deve ter testemunhado esse longo reinado de mediocridade e entreguismo. O nacionalista francês Maurice Barrès definia o nacionalismo como o reconhecimento do peso do passado, das grandes vozes da terra e dos mortos. A voz de Leonel Brizola é uma das que sempre merecerá o nosso reconhecimento.

8 Comentários até agora.

  1. Antonio Tanure Gama says:

    Com a morte do Dr. Leonel de Moura Brizola desapareceu o último estadista brasileiro.

  2. ALVARO says:

    MEUS CONTERRANEOS DO RIO GRANDE DO SUL,JAMAIS O BRASIL TERÁ UM NOVO DR. LEONEL DE MOURA BRIZOLA. BRIZOLA FICARÁ NA HISTÓRIA DA NAÇÃO COMO UM DOS GRANDES HOMENS PUBLICOS.O RIO GRANDE DO SUL DEVERÁ COLOCAR PLACAS EM SUA HOMENAGEM BEM COMO A CIDADE DE CARAZINHO SUA TERRA NATAL.DR. LEONEL DE MOURA BRIZOLA,SIMPLESMENTE,BRIZOLA.
    BRIZOLA VIVE EM NOSSAS MENTES E CORAÇÕES.BRIZOLA O POVO GAUCHO TEM ORGULHO DA TUA VALENTIA.VEJA-SE A LEGALIDADE. ALVARO

  3. Raquel says:

    Belíssimo artigo, digno da figura ímpar que foi e sempre será Leonel de Moura Brizola. Parabéns prof. Paulo, sua homenagem foi contundente!

  4. antonio carlos seatto says:

    Infelizmente o Brasil perdeu o bonde da história deixando de eleger o Grande Leonel Brizola em 1989. Brizola e Darcy Ribeiro, com toda a certeza, daria um choque na educação….imagine, passados 21 anos após a volta das eleições diretas e Brizola presidente o que seria do Brasil?? Com toda a certeza já seríamos um país de primeiro mundo. Outro fato a ser destacado em relação a esse estadista, é que não pesa contra ele nenhuma acusação. Brizola foi governador do RS, 2 vezs do Rio de Janeiro e jamais, alguém ouviu falar que ele utilizou o poder em benefício próprio. Que Deus o tenha na Eternidade. Brizola, você faz muita falta mesmo.

  5. Zé Roberto says:

    Bom dia,

    De fato, Brizola é um marco na nossa história, merece e sempre merecerá nosso respeito, se eu fosse carioca e não gostasse do lula, Brizola seria sempre meu candidato.
    Quando fazemos uma análise de conjuntura nacional utilizando os fatos históricos, resgatamos muitos lamentos, mas não podemos colocar todos no nomesmo saco.
    Assim também Lula ficará na história, tem coragem e é um estadista.
    É sempre bom assumirmos que somos falhos, que erramos, mas temos tempo de corrigir nossos erros.
    Ah!
    Miriam, em quem mesmo você votou para dirigir nosso país?
    Abraço

  6. Mírian Waleska Jacuniak da Rosa says:

    Sem duvida, Leonel Brizola foi muito mais que um político, foi um exemplo de como deve se portar um político, de como deve ser um político. Por mais que eu me esforçe, por mais que eu queira ser gentil, não consigo compara-lo a ninguem da esfera política nacional, e nem internacional, não tenho conhecimento de outro político que tenha tido a sua fibra, sua coragem, sua visão totalmente voltada aos interesses da nação e unicamente aos interesses da nação. é lamentável constatar que ele não deixou sucessor,que sua vóz não chegou aos ouvidos e ao entendimento dos que hoje formam essa imensa massa que decide os destinos do nosso país.
    Quando ouço falar nos escândalos que norteiam o Gov.Lula, nos roubos praticados sem pudor, vejo tudo isso como uma tragédia anunciada, ele sempre nos avisou, ele por inumeras vezes ocupou os microfones para nos alertar que estávamos sendo roubados, nada disso me surpreende. não me sinto decepcionada com o governo atual, porque nunca confiei nele e nem em sua equipe, a decepção existe quando voce acredita em alguem e esse alguem se mostra diferente do que voce esperava, portanto o Lula e sua equipe podem mentir e roubar a vontade que não estarão me decepcionando, eu ja esperava. Apenas lamento o Gov. Brizola não estar vivo para presenciar tudo isso, com toda certeza teríamos muitas aulas de cidadanía em seus pronunciamentos, aliás, acredito piamente que após sua morte todos eles se sentiram mais á vontade para colocar a mão nos cofres públicos, Leonel Brizola era o único político que tinha coragem de denunciar, de falar, de alertar o povo, sem ele, ficou tudo dominado, esse é o termo.
    Jamais na história desse país haverá outro político com sua fibra, com seu amor por esse país e pelo seu povo, um amor que ía além de qualquer interesse pessoal, sua história é uma das mais lindas da política mundial, porque ela foi baseada na honestidade, na firmeza de carater, num idealismo sem fim, sua história não teve máculas, não teve escândalos, não teve marcas da corrupção, Leonel Brizola póde não ter ensinado a nenhum político ser igual a ele, mas me ensinou muito atravéz de suas idéias, de seus atos, de sua honestidade. Não aprendeu com Brizola quem não quis, quem não aproveitou sua passagem por aqui, atravez de seus pronunciamentos pelas rádios e tvs, cada vez que ele se pronunciava tinhamos verdadeiras aulas de cidadanía e amor á pátria, aquele amor que não consigo enchergar em NENHUM outro político brasileiro, e olha que eu tenho me esforçado.
    Enfim, povo brasileiro, nós tivemos a oportunidade de te-lo como presidente da republica, e essa oportunidade passou entre os vãos dos nossos dedos, agora é pedir para ele que de onde ele estiver, interceda por nós.

  7. mirian waleska j. da rosa says:

    Nunca mais na historia desse país haverá um político igual ao Gov. Leonel Brizola, eu tive a oportunidade de dizer isso a ele, eu admirava muito a sua maneira de fazer politica, sua fibra, sua corágem, Brizola pra mim foi mais que um politico, foi um defensor da nossa pátria, lamento que inumeros politicos que antes se escondiam, mostraram a cara nos funerais dele para dizer que ele era fantástico. Porque não lhes disseram isso em vida? porque não se uniram a ele pra acabar com os conchavos e roubos em nosso país? porque não lutaram junto com ele para leva-lo a presidencia desse país que era bem mais dele do que nosso? Pobre Gov. Brizola que muitas vezes lutou sozinho pelo povo, que não teve apoio pois era mais vantajoso se mostrar contra suas ideias do que assumir que ele estava certo. A escola em tempo integral era uma realidade no Rio de Janeiro, hoje a criminalidade tomou conta, se tivessem ouvido e apoiado suas ideias a criminalidade no país não estaría como está, pois ele sempre afirmou que a educação é a base de tudo
    Leonel de Moura Brizola sempre estará vivo em meu coração, suas ideias, suas lutas, sdua corágem norteiam minha vida até hoje, e enquanto eu viver. um grande abraço
    Mírian Waleska J. Da Rosa
    46-91116267

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