Paulo Nogueira Batista Jr.
Não sei se estou ficando de miolo mole depois que vim aqui para oFMI. Mas a verdade, talvez constrangedora, é que estou gostando umpouco mais da política do Banco Central. Um leitor notou essa convergência em artigo que publiquei recentemente na Folha deS.Paulo. Logo você que sempre foi tão crítico da política monetária, reclamou.
Bem. Eu poderia dar a célebre resposta de Keynes que, questionado durante uma palestra sobre as suas constantes mudanças de opinião, retrucou: Quando as circunstâncias mudam, eu mudo a minha avaliação. O senhor não? Não seria tão taxativo, porém.
Primeiro,porque não mudo tanto de opinião. Ousaria apenas levantar a hipótese,meramente tentativa, de que a política do BC esteja melhorando aos poucos, sem descartar a outra hipótese, talvez mais realista, de que eu é que esteja ficando pior.
Mas vamos aos fatos. Contrariando a avaliação de boa parte do mercado, que esperava um aumento, o Copom manteve inalterada a taxa básica de juros na reunião que terminou anteontem. Três dos oito integrantes do Copom teriam preferido aumentarem 0,5 ponto percentual a Selic, mas os demais votaram por mantê-la constante, sem viés.
A divisão do Copom é compreensível.
Havia argumentos pró e contra o aumento dos juros. Do lado pró, o aumento da inflação neste início do ano, por exemplo.
Além disso, o relatório Focus do BC, que coleta as expectativas de mercado,vem indicando aumento da inflação esperada para 2010 há oito semanas consecutivas. No último relatório, a expectativa mediana de inflação aumentou para 5%. Acumulam-se, também, sinais de que a economia cresce em ritmo apreciável, o que dá algum suporte à preocupação com o risco de excesso de demanda.
Não obstante, o Copom parece ter acertado em não aumentar os juros. A aceleração recente da inflação se deve em parte a fatores sazonais (reajustes de mensalidades escolares e de tarifas de transporte público, que acontecem nesta época do ano) e acidentais (o efeito das fortes chuvas sobre os preços de alimentos). Indicadores do setor industrial sugerem, também, uma acomodação do ritmo de crescimento da produção. Nos meses recentes, tanto o nível de produção como o grau de utilização da capacidade instalada mostram alguma estabilidade.
Não se deve esquecer, ademais, que o real continua oferecendo os juros mais altos entre os principais países. Segundo levantamento da UpTrend Consultoria Econômica, o juro real básico da moeda brasileira, de 4%, ainda é o maior em um grupo de 40 moedas. Para esse grupo, a média atual é negativa em 0,5%. Nada menos que 22 das 40 moedas têm juros negativos em termos reais.
De qualquer maneira, se for o caso de conter o ímpeto da demanda nos próximos meses, um aumento acentuado da taxa básica pode não ser o melhor caminho.
Em primeiro lugar, porque isso prejudicaria diretamente as finanças públicas. Em segundo lugar, e mais importante,porque reforçaria a já excessiva e problemática sobrevalorização do real. A própria apreciação do real, além de desequilibrar as contasexternas e danificar o setor industrial, sobrecarrega também as contas públicas, uma vez que o governo é credor líquido em moeda estrangeira.
Que o Copom continue atuando com moderação! Caso seja necessário controlara expansão da demanda, o ideal é combinar a política de juros com instrumentos fiscais e creditícios. Isso poderia significar, por exemplo, reforçar ou ampliar as medidas de ajustamento fiscal e de restrição do crédito já tomadas. Esse tipo de medida permite, em geral,controlar a inflação sem (ou com menos) efeitos adversos sobre a taxa de câmbio e as finanças do governo.






[...] hoje pelo economista Paulo Nogueira Batista Jr., que quis compartilhar com vocês na seção Artigos. Paulo, a quem não conheço mas que, faz tempo, tenho lido com atenção e considerado sempre [...]