O Poder da Foto
FC Leite Filho
Ah as fotos! Tem razão o axioma de que uma foto vale mais do que mil palavras. Nem os vídeos, que, modernamente, começam a popularizar-se na iternet, têm o poder de concentração da fotografia. Ainda que ágil e dinâmico, o vídeo só mostra uma passagem, um detalhe, ainda que traga som e movimento, além da imagem. Já a foto, mesmo muda e congelada, é diferente. Ela lhe remete diretamente a um fato, uma circunstância, sem falar nas mais variadas digressões e conjecturas, no tempo e no espaço.
Tomemos como exemplo esta foto ao lado, em preto e branco. Ela chega sem indicação de data, local ou evento. Mas logo estampa o momento, a campanha sucessória de 1950. A presença de Getúlio Vargas, mesmo em posição quase secundária, não deixa dúvida. O local não se mostra muito evidente, mas a julgar pela posição destacada dos paulistas e da elegância da vestimenta daquelas figuras, parece tratar-se de uma rua de São Paulo. O fato de estar todo mundo agasalhado e de roupa escura, além do cachecol do cidadão abaixo à direita, sugere que é inverno ou fim de outono. A neblina emergindo do fundo vem confirmar nossa conjectura, pois não existe nada mais característico da paulicéia do que a garoa paulistana. Mas cuidado com aqueles tufos caindo sobre as cabeças: não é neve, é papel picado.Agora, se detendo naquele fotograma, a gente vê descortinar-se um pedaço, um instantâneo significativo da história. Naquela campanha de 50, Getúlio dava a volta por cima, depois de ter sido deposto como ditador, em 1945, para “voltar ao poder nos braços do povo”, como ele insistia em dizer. Sua figura diminuta, só tinha 1,51, em contraste com o corpanzil de Ademar de Barros e o porte atlético de Gregório Fortunato, o Anjo Negro, como lhe apodou a enraivecida oposição chefiada pela UDN, é outro paradoxo que a foto não consegue esconder.
Logo abaixo, de óculos ray-ban escuro e pinta de playboy, está Leonel Brizola, no verdor de seus 28 anos, mas já engajado no comando nacional da campaha. Topetudo, Brizola, filho de pequeno agricultor, chegara até ali pela habilidade e tino de organização que almejara ao organizar a Ala Moça do PTB. Na foto, já era deputado estadual e se preparava para a reeleição naquele pleito geral de 50. Também já tinha casado, com Neusa, irmã de João Goulart, o Jango, que viria a ser presidente, 31 anos depois, em cerimônia de que Getúlio foi padrinho.
Um pouco atrás, encoberto pelo braço levantado de Brizola, vem João Goulart com o olhar atento sobre o velho mestre e mentor. Aqui, a história também se cruza. É que Jango e Brizola logo viram os dois pupilos a que Vargas sempre recorre em missões difíceis e que exigem alta confiança. Depois de eleito, Getúlio levou Jango para o Rio de Janeiro, ainda capital federal, e deixou Brizola, três anos mais moço, em Porto Alegre, para “cuidar da base”. De vez em quando, os dois se juntavam para tarefas mais complexas, como os recados ao presidente Perón, em Buenos Aires.
Mas voltando aquele instantâneo aparentemente paulistano. Como é que aquele baixinho conseguiu se impor e dominar aqueles gigantes e todo o aparato que se armou para barrar-lhe o retorno? A manchete de um jornal raivoso, mas muito influente, liderado pelo rapaz de ouro da então grande imprensa, hoje mídia, Carlos Lacerda, vociferava:
“O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência,
Candidato, não deve ser eleito,
Eleito, não deve tomar posse,
Empossado, devemos recorrer à revolução para impedí-lo de governar”.
Aquele altão atrás de Getúlio pode servir de chave para esse enigma. Ademar Pereira de Barros, homem da oligarquia do café, mas altamente popular entre os paulistas, governava a futura locomotiva do Brasil pela segunda vez e decidiu engajar-se na campanha. Ele revolucionou São Paulo, com grande obras, inclusive de caráter social. “São Paulo não pode parar” era seu slogan que calava fundo no empreendedorismo paulista, ainda que fosse contrabalançado com o pouco edificante “Ademar rouba mas faz”. O fato é que ele era raçudo e não tinha medo da mídia. Chegou a confiscar, em pleno regime de liberdade, “O Estado de São Paulo”, o venerável “Estadão”, que teve de comer na sua mão até o fim do mandato (1947-1951).
A opção natural seria postular o cargo de vice na chapa de Getúlio. Mas Ademar não quis arriscar, pois teria de desincompatilizar-se do governo, entregando-o a seu vice Luis Novel, seu inimigo. Indicou Café Filho, advogado e jornalista do Rio Grande do Norte, com participação na Aliança Liberal, que levara Getúlio ao poder na revolução de 1930.Um pequeno parêntese pode recordar as relações heterodoxas desses dois políticos. Ademar, como todo jovem paulista de boa cepa, tinha pegado em armas contra Getúlio, na Revolução Constitucionalista. Esmagada esta, depois de quase três meses de tumulto mais do que lutas, Ademar, então com 31 anos, candidatou-se a deputado e aproximou-se de Getúlio, sendo por este nomeado interventor de São Paulo, posto equivalente ao de governador. Neste cargo, construiu a Avenida 9 de Julho, em homenagem ao golpe contra Getúlio. Adivinhe quem foi o convidado de honra? Getúlio Vargas, que aceitou o encargo, de muito bom grado.
O apoio de Adhemar foi assim crucial no esquema de Vargas, ainda que o enorme apoio popular deste fosse o fator determinante na ao Catete, como se chamava o palácio presidencial do Rio.
Mas fico por aqui, senão vou acabar contando o resto da história do Brasil. Deu para perceber o que leva o poder da foto, ainda por cima destas em preto e branco?





