Brizola Neto, no jornal O Povo do Rio
Imagine que um país, durante mais de 20 anos, fechasse todas as escolas públicas. Quem quisesse aprender a ler e escrever que seguisse as leis do mercado, pagando por isso o preço cobrado pelas escolas particulares. Não é difícil imaginar que depois de duas décadas, este país tivesse uma legião de analfabetos, não é?
Aí vem alguém e diz que “ temos que acabar com o analfabetismo”, como se fosse a coisa mais simples do mundo, não apenas alfabetizar as crianças que estavam nascendo e crescendo como também aqueles milhões de adultos analfabetos que se constituíam em um espécie de “dívida” que aquele país tinha acumulado.
Bom, se aparecesse um governante que quisesse isso, ele certamente não ia poder acabar com o analfabetismo em pouco tempo, não é? E não poderia, se tivesse um pouco de humanidade, discriminar ou maltratar quem fosse analfabeto, não é mesmo?
O problema da habitação é mais ou menos assim. Durante mais de 20 anos, desde que acabaram com o BNH – que, com todos os seus defeitos, ainda fazia alguma coisa -, o Brasil não teve nenhuma política pública de habitação. Quem quisesse ter uma casa legalizada, em área urbanizada e segura, que pagasse o preço cobrado no mercado.
E quem não podia pagar, o que fazer?
Um pessoa pode viver – muito mal, mas pode – sem ler ou escrever. Mas não pode viver sem ter onde morar, mesmo que seja mal e em lugares de risco.
Foi isso o que aconteceu aqui no Rio de Janeiro, na capital e em muitos municípios. Aliás, aconteceu no Brasil inteiro. Quem conseguiu comprar um lote, mesmo sem urbanização, ou quem conseguiu ocupar um terreno que estava ao Deus dará fez sacrifício, se apertou para comprar cimento, tijolos, juntou os amigos para bater o concreto, foi fazendo sua casinha como e onde podia.
Algumas destas pessoas, com as chuvas, perderam suas casas. Algumas, perderam a própria vida.
A grande imprensa e políticos que nunca se preocuparam com elas estão aí gritando: que absurdo, como é que deixaram aquelas pessoas morarem ali! Uns, mais cínicos, ainda vieram culpar os poucos prefeitos e governadores que, preocupados com suas condições de vida, colocaram água, esgoto e luz naquelas comunidades, para pessoas que não tinham nada. Queriam o quê, que se deixasse aquelas pessoas com a lata d´água na cabeça, no meio das valas negras e acendendo vela de noite?
Eu fico revoltado quando vejo tanta maldade e covardia. Eles não dão um pio quando se trata de criticar os governos que deixaram o Brasil sem um programa de financiamento da casa própria acessível ao povo. Não dão um pio contra os juros cobrados pelos bancos para financiar um imóvel modesto.
Mas são valentes quando se trata de culpar os pobres. Querem que o governador e os prefeitos joguem os tratores e derrubem as casas irregulares, sem se importar como e onde estas pessoas vão morar. E ainda dizem que querem evitar que elas morram, embora não se importem em como vivem e como viverão, lá nas lonjuras, sem transporte, sem água, sem luz, sem casa.
No fundo, são contra o único governo que, nos últimos anos, recém começou um programa de habitação, o Minha Casa, Minha Vida, que está ainda no seu primeiro ano.
Eu espero que o governador Sérgio Cabral – que está recebendo créditos do Governo Federal para atacar o problema das áreas de risco e os vai repassar aos prefeitos – cobre de todos eles não apenas bons projetos e eficiência na realização das obras. Que cobre, também, respeito à população mais pobre, para que ela seja tratada com dignidade e que possa ter soluções de moradia próximas aos lugares onde já está. Gente não é gado para ser posta num caminhão e despejada lá no fim do mundo.
Seria a mesma coisa que um país querer acabar com o analfabetismo matando os analfabetos, em lugar de dar-lhes escola.






Ontem, dirigindo em uma “estrada” em Niterói, duas mãos, uma faixa cada, com duas linhas amarelas contínuas as separando (para quem não tem carteira de motorista, significa que é proíbido ultrapassar), fui surpreendido por um “mais esperto”, que ignorou a listar amarela dupla, veio na contra-mão e, quando se deu conta que ia se arrebentar de frente com um ônibus que vinha no sentido contrário, me cortou e entrou na minha frente. Na hora fiquei pensando: se ele é tão macho que se acha no direito de entrar na contra-mão e voltar para a mão na hora que lhe convier, e que se alguém reclamar de forma mais veemente ele provávelmente vai sacar uma arma, um porrete ou algo assim e ameaçar quem reclamou, porque ele não é macho o suficiente para peitar o motorista do ônibus e fazer com que o ônibus é que saia da frente e o deixe continuar na contra-mâo para ganhar preciosos minutos e para lhe dar a auto-afirmação de que ele é macho?
Parece a imprensa, que não tem dó em atacar os mais fracos, mas na hora de atacar os grandalhões, desculpem o termo, peidam na farofa. Para mim a grande imprensa e a imprensa são a mesma coisa: covardes.
“Seria a mesma coisa que um país querer acabar com o analfabetismo matando os analfabetos, em lugar de dar-lhes escola.”
Tremo só de pensar nisso. Essa frase é a cara dos demo-tucanos e seus asseclas. É tudo que eles sonham realizar em todas as áreas…
Deus nos livre e guarde.
Mas temos que ser humildes e aceitar este futuro nefasto que nos espera. Depois da últimas esclarecedoras pesquisas Data-Fraude e da maravilhosa capa da Veja desta semana com o doce e magnânimo Serra pós-Lula na mesma, não tenho mais esperanças. Tá tudo dominado. Por eles. Para o povo nada.
Brizola, excelente o seu artigo.
Diria mais, acham que pobre e ainda por cima analfabeto só serve para limpar suas latrinas. Fico indgnada quando uma pessoa que sempre estudou em escolas particulares e vai para a universidade pública (com todo direito de qualquer brasileiro) forma-se, monta seu escritório /consultório e o primeiro cliente que atende, pergunta: com ou sem recibo. Sou otimista, estamos melhorando; cabe a cada um de nós cobrar e fazer a nossa parte.
[...] início da coluna dominical que publico no jornal O Povo do Rio e que você pode ler, na íntegra, aqui. RSS 2.0 feed Trackback Comentar! Dilma, eles precisam de seus [...]