Pré-sal: a pressa é inimiga da nação

Jornal do Brasil, 1o. de julho de 2009

Brizola Neto

Qualquer estudante de segundo grau sabe que energia é essencial ao desenvolvimento. E que o petróleo está terminando em todo o mundo. Quem o tem, tem uma riqueza tão valiosa que é alvo da cobiça que chega, às vezes, até mesmo à guerra. Nem sempre foi assim.

Nos anos 50, quando se criou a Petrobras, o petróleo era barato. Encontrá-lo, diante das pequenas quantidades localizadas, era caríssimo. Alguns idealistas, como Monteiro Lobato, sacrificaram seu patrimônio com a determinação de achá-lo. Os homens “práticos”, destes que pensam com a cabeça de uma máquina de calcular, jamais teriam se lançado a pesquisar e produzir petróleo.

Afinal, com um preço médio de US$ 3 dólares por barril até o início dos anos 70 e uma produção que mal passava de 100 mil barris diários seria fácil concluir que, nas contas na ponta do lápis, era prejuízo. Se quisermos sofisticar, era uma péssima relação custo-benefício.

Acontece que um país, como a vida de uma pessoa, não se administra só com um lápis atrás da orelha, mesmo que certos economistas usem hoje sofisticados programas de computador para agir da mesma forma.

A acumulação de conhecimento, o desenvolvimento de tecnologia, a base industrial desenvolvida pela Petrobras foram o que nos permitiu, nos anos 70, lançarmo-nos às descobertas na plataforma continental. O preço do barril, com o primeiro choque do petróleo, multiplicara-se cinco vezes e a pesquisa e a extração marítimas passaram a ser viáveis.

Repetiu-se, de lá para cá, o processo de acumulação ocorrido nos 20 anos anteriores. O Brasil passou a ser líder em capacidade de exploração em águas profundas e tivemos um crescimento contínuo da produção e na identificação de reservas.

Este é o primeiro fato a constatar: temos uma empresa capaz de achar e tirar petróleo, seja qual for o grau de dificuldade que esta exploração tenha.

O segundo vem de dois acontecimentos coincidentes neste início de século 21. Os preço do petróleo explodiu e , antes da crise mundial, chegou a passar dos US$ 150 por barril. Mesmo com a recessão, já voltaram à trajetória de alta. E por aqui, a descoberta de reservas gigantes no que se chamou de camada pré-sal, localizadas entre cinco e sete mil metros de profundidade.

Temos, portanto, petróleo a extrair. E temos, também, uma empresa capaz de extraí-lo. O que nos falta, então?

Primeiro, saber quanto existe de petróleo no pré-sal. Sabemos que são dezenas de bilhões de barris, mas quantas dezenas de bilhões? O presidente da ANP, Haroldo Lima, disse ao Estadão, no dia 7 de novembro passado: “havia uma previsão de 5 a 8 bilhões de barris. Posteriormente, com a descoberta de outros campos, isso evoluiu para um mínimo de 12 e um máximo de 70 bilhões”. Seis dias depois, 13/11, o Ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, disse à Reuters, em Nova York, que “existe a perspectiva de que nós tenhamos no pré-sal algo entre 50 e 150 bilhões de barris de petróleo da melhor qualidade”. Vejam que precisão: passa-se de 5 a 150 bilhões de barris com a facilidade de quem coloca uma batata a mais no “um quilo, bem pesado” de um feirante.

Esta foi a razão que me levou a apresentar um projeto (o PL 5334) na Câmara determinando que a Petrobras seja contratada para, imediatamente, inventariar o tamanho destas reservas. Antes disso, nenhuma concessão no pré-sal pode ser entregue por leilão. Primeiro, porque já não há nenhum risco de não se produzir ou produzir pouco na província petrolífera do pré-sal. É dinheiro mais do que certo. Depois, o pré-sal não é uma série de “cisternas” estanques de petróleo: as jazidas se comunicam e não se restringem à área concedida.

O projeto tem, assim, uma natureza apenas cautelar. Não entra, ainda, no aspecto de definição de como o petróleo será explorado. Porque isto, para ser feito de forma honesta, depende de quanto petróleo há e em que condições pode ser explorado. Penso que merece o apoio de todas as pessoas responsáveis, seja qual for o seu entendimento sobre a forma mais eficaz de fazer a exploração. O que buscamos é, simplesmente, salvaguardar um enorme bem nacional para que, não se aliene esta riqueza de qualquer forma, sem as informações adequadas.

Porque esta etapa antecede o segundo embate, em que iremos definir se apropriação desta riqueza que poderá, quem sabe, ser a redentora de nossas mazelas sociais deva ser exclusivamente nacional ou se deve ser partilhada com o “mercado” internacional. Como temos uma empresa forte e capaz como a Petrobras, podemos fazê-lo sem abrir mão de nossa soberania. Não somos xenófobos e podemos praticar aqui joint-ventures que nos sejam adequadas. Mas não ser xenófobos não significa sermos trouxas.

Criar uma nova estatal para o petróleo do pré-sal é apenas criar um escritório de negociação de interesses. Quem tem o conhecimento, as sondas, a técnica para explorar este petróleo é a Petrobras. Uma nova estatal simplesmente para conceder a sua exploração, se já temos a ANP que representa – ou deveria representar – os interesses do Estado brasileiro é, para dizer o mínimo, um pleonasmo. E – porque não? – abrir a porteira para favorecimentos, desvios e descaminhos que uma estrutura corporativa sólida como a da Petrobras não pode fazer, não sem que isso acabe do conhecimento público.

Ao governo Lula, até aqui tão conformado com o “marco regulatório” com que FHC alienou não apenas as jazidas como boa parte do capital da empresa brasileira capaz de explorá-las e uma parcela maior ainda dos lucros que isso gera, lançamos uma proposta. Porque não usar o tesouro do pré-sal para restaurar não apenas de forma teórica o monopólio constitucional do petróleo que a Constituição prevê mas, fazê-lo na prática, readquirindo, com parcela destes recursos, a propriedade da empresa capaz de transformar o intangível mar de petróleo do pré-sal em valor real?

Tudo isso, porém exige um debate que não pode ser prisioneiro de decisões tomadas em nome da pressa. O óleo que jaz sob o pré-sal não se desvaloriza. Ao contrário, a cada dia vale mais e mais. A pressa não é apenas inimiga da perfeição. Neste caso, quando querem levar o Brasil a decidir a toque de caixa como se retirará a maior riqueza mineral de toda a sua história, a pressa é ainda pior, porque acoberta a perda de uma riqueza que nem mesmo sabemos medir. A pressa insana, no pré-sal, é inimiga desta nação.

3 Comentários até agora.

  1. Fábio Menezes says:

    Já estão querendo boicotar a extração no pré-sal ou estou vendo pêlo em ovo?

    Fonte: Reuters
    http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/100710/manchetes/manchetes_petroleo_ue_restricoes

    UE estuda restringir exploração de petróleo em alto-mar

    MILÃO (Reuters) – A União Europeia pode estudar a adoção de um limite de profundidade para a exploração de petróleo no oceano em reação ao vazamento em um poço da BP no golfo do México, disse neste sábado o comissário europeu de Energia em entrevista ao jornal La Stampa.
    Guenther Oettinger afirmou ainda ao periódico italiano que o bloco de 27 países pode avaliar a necessidade de criar uma outra agência para supervisionar a exploração de petróleo no mar, além da Agência Europeia de Segurança Marítima.
    “Uma decisão poderia ser determinar que você não pode ir além de certa profundidade X. Outra seria dar um limite de tempo para as licenças de exploração”, disse.
    Alguns equipamentos de perfuração são muito velhos e é preciso um padrão para modernizá-los, acrescentou.
    Segundo o La Stampa, Oettinger vai se encontrar com executivos europeus do setor de petróleo na quarta-feira para discutir regras de perfuração e segurança.
    Oettinger repetiu sua sugestão por uma moratória de novos alvarás de exploração até que novas regras de segurança estejam em vigor. Ele não estipulou um prazo, mas disse: “Queremos poder reunir um catálogo de possíveis consequências para cada novo poço. E queremos isso neste ano”.
    Nos Estados Unidos, o governo declarou uma moratória na perfuração em alto-mar para dar tempo a uma comissão para apurar as causas do vazamento de petróleo no golfo do México. Um tribunal federal, no entanto, suspendeu a proibição. O Executivo recorre da decisão.
    (Reportagem de Ian Simpson)

  2. Augusto César says:

    Alan,
    Você tem razão quanto aos outros combustíveis não-fósseis e renováveis, não poluentes, etc. Sugiro que você entre no site da ABVE – Associação Brasileira do Veículo Elétrico http://www.abve.org.br e, também, do INEE – Instituto Nacional de Eficiência Energética – http://www.inee.org.br.
    Temos aqui no Brasil projetos de Célula de Combustível (hidrogênio) inclusive com um protótipo de um ônibus. O problema é que ainda não se desenvolveu tecnologia que torne este combustível economicamente viável. Estima-se que pelos vindouros 2040 ou até mais, a gente possa começar a pensar no hidrogênio produzido em larga escala.
    Abs.
    Em tempo: parabéns ao Brizola Neto pelo excelente artigo.

  3. Allan Novaes says:

    Artigo muito bom. parabens.
    fazer com que essa riquesa seja somente do brasil como você disse, transformar em reais (talvez).
    você sabe que em questão de (valores) não só nós mas todos os seres humanos sempre erramos em pensar que tudo isso é de algun pais ou de algumas duzias de pessoas.
    agora quem ou oque será beneficiado com o pré-sal ? …

    Bem 50 a 150 bilhões de barris.
    quanto petróleo foi vendido e queimado até hoje.
    nunca é tarde para evoluir e enxergar as escolhas que temos.
    Até hoje quanto foi gasto para pesquisa de petróleo em solo, e submerso..? vamos comparar esse custo com a pesquisa de outras energias.

    atualmente, digamos que quase todos os pesquisadores sabem que existem outros tipos de combustiveis, muito mais baratos e abrangentes. como o caso do hidrogenio que chega a ser quase infinito na extração e utilização. além de ser MUITO poderoso (usado para lançar foguetes pela nasa) NÃO POLUI.
    hoje em dia aqui no prasil os adolescentes nas escolas primarias extraeem hidrogenio na feira de ciencias.
    pra quem não sabe hidrogenio esta na agua, no ar e na maioria de todas as coisas que existem inclusive no universo.

    na queima de hidrogenio se sobrar alguma coisa é Agua ou Óxigenio ( ar puro )

    a bmw e outras empresas ja lançaram carros com motores a hidrogenio., um homen foi assassinado a mais de 30 anos, porque fez na sua garagem um carro movido a agua (hidrogenio)
    (volta em forma de chuva)

    se não me engano um coreano, puxou um carro utilizando sua bicicleta com peso atras, em sua roda havia um sistema magnetico que amplificava dezenas de vezes suas pedaladas.

    agora eu pergunto., não é hora de evoluir ? de parar com a ganancia do petroleo, e respirar livremente! poder saber que daqui a 100 anos tudo estará melhor doque esta hoje.

    o pré-sal, sim é uma riquesa para o mercado hoje, mas pra quem? pra nós? ou pra quem nos engana e nos faz respirar toneladas de lixo tóxico.

    será que vale a pena extrair do solo do planeta 150 milhões de barris, e queima-lo? isso tudo voltará para o solo em forma de poluição, doenças, fome e tudo mais.

    concordo com você, a pressa do pré-sal é inimiga da nação. (e de todos).

    sabe oque vai acontecer ?
    quando essa extração tiver no pico, e o brasil ou quem mais pensar que ta se dando bem…. um chines ou japones, ou alemao ou qualquer outro, vai começar a vender seus carros com outras energias, e la vai o brasil pra “roça” de novo.. pra quem pensa que isso tudo será facil.. tem muita coisa a vir ainda.

    uma dica para todos.
    hoje a mídia na internet esta dominando, quem quizer saber acesse o youtube e faça pesquisas sobre:

    Moto magnetica japonesa ( moto movida a energia elétrica e magnética )
    Hidrogen turbine ( turbina a hidrogenio, a mesma poderia ser utilizada para geração de energia ou propursão para aeronaves )
    Water power ( poder da agua, varios videos do poder do hidrogenio, e o documentario do homen que foi assassinado )
    poisbem, ai esta minha sincera opnião para quem quizer.. pra quem não quizer apenas faça oque faz todos os dias…….. continue assim.

    até mais abraços..

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