Flávio Tavares
Aquele virar de século, quando passamos de 1999 a 2000, permanece na memória, solidamente inesquecível, como se já nem fosse 2010. Sorríamos na alegria de conhecer um novo século, mas a mudança semeava medos: mundo afora, temiam que os programas de computador apagassem os cifrões da conta bancária e tudo acabasse em zeros, dos salários a outros numerários. O medo gerou corrida aos bancos. Milhões de mentes esperaram o horror.
Não confiavam na verdade. Preferiam o preconceito e apostaram no caos. Nada de anormal ocorreu, porém: o programa do computador adaptou-se à realidade, saltou de 1999 para 2000 e seguiu adiante, incólume.
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Nada é mais pernicioso do que o preconceito, seja onde for. O final de 2009, por exemplo, fez o Brasil retroceder aos preconceitos da “guerra fria”, como se fosse 1964 e os anos da ditadura de direita que nos governou por duas décadas.
O ministro da Defesa e os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica rebelaram-se contra decreto do presidente da República e lhe deram um ultimatum: ou modifica o Programa Nacional de Direitos Humanos ou eles se demitem. A demissão coletiva tem sabor de motim. Inverte a hierarquia, que faz das Forças Armadas uma instituição permanente, e o chefe de governo (que é o comandante militar supremo e devia mandar) passa a obedecer àqueles que seriam os comandados.
Elaborado pelo ministro Paulo Vanucchi, de Direitos Humanos, o programa se concentra nas áreas de segurança e educação e não invade qualquer atribuição militar. Para resgatar a História recente, cria a Comissão Nacional da Verdade, similar às da África do Sul, ao fim do “apartheid”, e do Chile, após Pinochet.
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Por que isso atemoriza os chefes militares? Na Argentina, onde a ditadura fez “desaparecer” 28 mil pessoas entre 1976 e 1983, os chefes militares tomaram a iniciativa de admitir os crimes cometidos e pedir perdão à sociedade. O país superou a divisão civis X militares e convive tão bem entre si que Nilda Garret (próxima à guerrilha Montonera) foi ministra da Defesa no governo Kirchner.
Entre nós, nem o general Enzo Peri, comandante do Exército, ou o brigadeiro Juniti Saito, da Aeronáutica, ou o almirante Júlio Moura Neto, da Marinha, ou o ministro Jobim, envolveram-se em torturas ou assassinatos de presos políticos. Isso ficou por conta da minoria treinada por Washington, que ocupou os porões dos quartéis e, mesmo com apoio dos chefes, nunca representou a totalidade do pensamento militar. Os três comandantes atuais iniciavam a carreira das armas quando do golpe de 1964 e não tiveram responsabilidade no delito de rasgar a Constituição.
O golpe de 1964 não foi obra da instituição militar como corporação em si, mas de um setor das Forças Armadas, afinado com a política da direita civil. Se assim não foi, como explicar a expulsão de quase um milhar de oficiais (de generais a heróis da 2ª Guerra Mundial) pelo governo ditatorial?
Só o preconceito – que transforma o conceito em tabu sem ir ao fato concreto – explica a situação criada no final do ano velho.






[...] O trecho acima é do artigo Preconceitos, do jornalista Flávio Tavares. Sua análise sobre o episódio da quase sublevação de Nélson Jobim é, como sempre, muito boa, num texto sempre muito bom. Publico na íntegra na seção Artigos. [...]