Em boa hora Darcy Ribeiro volta à cena por meio de uma antologia de artigos organizada por seu amigo Eric Nepomuceno.

Em 1997, escrevi: “Todo mundo quando morre faz falta para alguém, mas Darcy Ribeiro vai fazer falta para todo mundo, afetos e desafetos.” Cada vez mais. Os que o conheceram costumam repetir: “Ah, se o Darcy estivesse aí!” Não sei se o país seria diferente, mas a política certamente estaria menos mofina, porque ele soube conciliála com a ética, a erótica e a poética. Embora tenha deixado realizações como a Universidade de Brasília, 400 Cieps e o Sambódromo, prefiro lembrá-lo pelos seus gestos e atitudes. Ele era um iracundo, para usar uma categoria de que gostava tanto, ou seja, um ser em permanente estado de indignação e insurgência. Como disse a Eric, “nesta América Latina você só tem duas opções: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”. Nem o câncer conseguiu transformá-lo em paciente. Foi um doente tão impaciente que chegou a fugir da UTI. Viveu em eterno gozo, mesmo em meio a longos anos de dor e sofrimento.

Nunca se submeteu ao mal. Depressão, jamais.

Darcysista, se achava não só o homem mais inteligente do país, como o mais bonito. Pelo número de “viúvas” que deixou, devia ter razão. Uma delas, no enterro, um funeral festivo e divertido, debruçouse sobre o caixão e lamentou: “Ah, Darcy, como me arrependo de não ter dado pra você nas duas vezes que você me cantou!” Como antropólogo que viveu entre os índios kadivéu, achava que o Brasil era uma “usina de moer gente”; mas apostava no seu futuro: “Seremos uma Nova Roma. Melhor, porque lavada em sangue negro e em sangue índio”  Mas, para isso, seria necessário realizar uma “reforma agrária verdadeira”; e incorporar todo o nosso povo à “civilização letrada”, o que, na sua opinião, seria impossível com a nossa “desastrosa invenção da escola de turnos” . A esse sistema ele atribuía grande parte de nossas chagas, como o abandono das crianças na rua.

Empunhava sem pudor valores hoje anacrônicos como honestidade, entrega cívica e patriotismo: “Sou patriota à moda antiga, verde-amarelo, vibrante.”Desprezava os que desprezavam o Brasil, e citava os povos que deram certo por serem nacionalistas: “Os japoneses chegam a ser fanáticos, os alemães também e os norte-americanos, por igual, morrem de amor e de orgulho por sua pátria e por seu jeito de viver.” Lembrava Vinicius no apego às mulheres e à pátria, que o poeta chamava de “patriazinha” e ele, de “patrinha”.

Ex-senador, não se conformaria em ver a Casa que dizia ser “melhor do que o céu” desmoralizar-se tanto.

Nadando contra a corrente, Darcy Ribeiro foi o nosso mais encantador contraponto, o nosso mais charmoso contrapeso. Que falta ele faz!

3 Comentários até agora.

  1. anarquista says:

    Depois que Zuenir cunhou, nas páginas d’O Globo, a expressão “udenistas de rabo preso” ao se referir à festiva oposição demotucana no auge das CPIs do primeiro mandato de Lula, eu passei a admirá-lo profundamente.

    Agora, depois deste brilhante artigo sobre um dos maiores brasileiros da História da VI República, eu passei a idolatrá-lo…

    Parabéns, Zuenir, você é um dos últimos jornalistas realmente isentos do Brasil.

    Salam Ayek

  2. [...] acima é um trecho do bonito artigo que Zuenir Ventura publica hoje em O Globo e que reproduzo na seção Artigos, com um único reparo: foram 506 Cieps, não 400, como menciona o texto. Sobre o livro do grande [...]

  3. Roberto says:

    Mais um artigo para se jogar no lixo deste tal de Zuenir.
    O Darci foi muito maior do que ele descreveu aí em cima, mas como sempre,ele prefere ficar com a parte folclórica do personagem, coisa de quem trabalha para organizações Goebbels.

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