Brizola Neto, no jornal O Povo na Rua
Foi bom que a Agência Reguladora de Transportes esclarecesse que não propôs ao Governo do Estado a renovação por mais 25 anos – 50 anos, no total – da concessão à Supervia da operação dos trens do Rio de janeiro. Bom, porque chega a ser ofensivo à população que uma empresa que sacrifica tanto os trabalhadores pudesse ser “premiada” com a garantia de que o serviço é dela até nossos filhos virarem avós.
Mas vocês sabem que onde há fumaça, há fogo. E essa história da renovação da concessão, faltando ainda 13 anos de prazo para ela terminar – foi Marcello Alencar quem deu os trens à Supervia, em 1998, por 25 anos - tem muita coisa por detrás.
Primeiro, a empresa se comprometeu a investir R$ 300 milhões. Mas quem acabou entrando com o dinheiro foi o Estado, que é quem comprou e está comprando os trens. A melhoria operacional, todo mundo está vendo, ficou para o dia em que Papai Noel fizer a barba.
Depois, o serviço é péssimo e a segurança anda precária. O governador disse que ia “dar um puxão de orelhas” na concessionária, mas alguém, em vez disso, quer é dar-lhe um “presentinho” de mais 25 anos de concessão.
Mas tem algo ainda pior, que mostra que este esquema de privatização e de concessões “imperdíveis” – já viram alguma ser cassada por maus serviços? – é lesivo aos interesses da população.
A história é a seguinte. O Rio vai ter Copa e Olimpíada, certo? Portanto, precisa melhorar seu sistema de transportes. O Governo Federal já disse que colabora, financiando pelo BNDES. O Estado também vai investir: está comprando, por US$ 220 milhões, emprestados pelo Banco Mundial, mais 30 trens, que devem chegar no final de 2011 e início de 2012, se não atrasarem.
E a Supervia não vai coçar o bolso, logo ela que fatura R$ 300 milhões por ano cobrando uma boa tarifa por um mau serviço?
Diz que – diz que, note bem – vai, mas que só fará se garantirem mais 25 anos de mamata. Quer dizer, um espécie de chantagem sobre o poder público: um “vem cá, meu bem, senão não vai ter trem”.
Eu acho que o Secretário de Transportes, Júlio Lopes, está fazendo um mal ao Governo Sérgio Cabral em não divulgar publicamente estas pressões. Estão encostando a faca no pescoço do Governo do Estado, para arrancar estes 25 anos de dinheiro fácil – porque ser concessionário, cobrar a tarifa e não investir nada , todo mundo quer, até eu e você - e quem vai ficar mal na fita são os que tem responsabilidades públicas, não os empresários da Supervia, que a gente nem sabe quem são.
Concessão não é capitania hereditária. 50 anos é uma eternidade. 50 anos é a idade de Brasília, que começou praticamente do nada e hoje tem dois milhões de habitantes.
Esses contratos criminosos de concessão, que amarram as mãos dos governantes que têm a obrigação de dar transporte de qualidade ao nosso povo, têm de ser revistos. Como eu disse semana passada, as multas nem fazem cócegas nos milionários cofres destas empresas e quem acaba pagando, no fundo, é o trabalhador que usa os serviços.
Concessão tem de ter uma regra clara: cometeu falta grave ou uma falta atrás da outra, perde. Não é assim com o trabalhador no seu emprego? Quem vacila uma , duas, três vezes não toma uma “justa causa”? Trabalhador leva e empresário não pode levar?
A população não pode ficar sendo refém de uma empresa que a trata como boiada. E o nosso estado – e o próprio Brasil – muito menos podem deixar que nossos compromissos para a organização de dois grandes eventos mundiais fiquem dependendo da boa vontade da Supervia.






Meus parabéns pelo texto. Linkei seu artigo na comunidade do bairro de Campo Grande, no Orkut.
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