Disputa de projetos ou falsa polarização?
Representantes de sete partidos do campo democrático-popular e da esquerda debatem rumos e perspectivas da disputa presidencial.Em outubro acontecerão as primeiras eleições presidenciais diretas desde 1960 sem Lula como candidato. A ditadura impediu qualquer pleito direto até 1989. Lula concorreu em todas as eleições presidenciais desde então, perdendo três (1989, 1994 e 1998) e ganhando duas (2002 e 2006).
Portanto, há muita expectativa quanto ao próximo pleito. Parte da esquerda acredita que estão em jogo dois projetos: o do PT e o do PSDB. Para outros, o que existe é uma falsa polarização, já que os dois principais partidos do país não representariam os verdadeiros interesses dos trabalhadores. Para tentar estimular esse debate, a Caros Amigos ouviu a opinião de sete representantes de partidos do campo da esquerda (quatro da base governista e três da oposição de esquerda) para saber quais são suas expectativas em relação à disputa. José Eduardo Dutra, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores; Ivan Valente, deputado federal pelo Psol; Luiza Erundina, deputada federal pelo PSB; José Maria de Almeida, pré-candidato à presidência pelo PSTU; Ivan Pinheiro, secretário-geral do PCB; Brizola Neto, deputado federal pelo PDT, e Renato Rabelo, presidente nacional do PC do B, discutem os rumos, perspectivas e projetos das esquerdas para o país.
1. O que está em jogo nessas eleições?
José Eduardo Dutra (PT) – O que está em jogo é o futuro do Brasil. O resultado das eleições determinará se o país vai aprofundar o projeto de mudanças iniciado em 2003 – que levou ao fortalecimento do Estado, ao crescimento com distribuição de renda, à redução das desigualdades, à geração de milhões empregos e a uma nova percepção do país no cenário internacional – ou se iremos retroceder à época em que quase toda ação governamental era orientada pelo interesse de uns poucos grupos privados.
Ivan Valente (Psol) – Não há, até o momento, uma disputa de projetos, mas sim diferenças tópicas no mesmo projeto político de continuidade, em essência, do modelo neoliberal. A política econômica não está posta em questão, os fundamentos ortodoxos de corte dos gastos públicos, aumento de juros e liberdades totais de movimento de capitais farão parte tanto do programa da candidatura governista quanto da oposição de direita. O monumental impacto do pagamento de juros e amortizações da dívida pública para a área social não serão debatidos.
Luiza Erundina (PSB) – É uma eleição geral que vai definir os novos rumos do país e verificar quanto aquilo que foi construído e conquistado no curso desses dois últimos governos será preservado. Mas também há outras exigências a serem satisfeitas e atendidas do ponto de vista da política econômica e social. A política social avançou com o Bolsa Família, mas é preciso muito mais que isso. Além da política econômica, que a meu ver ainda se faz com bases no neoliberalismo econômico. No momento em que o país acumula conquistas importantes com uma liderança nas relações internacionais no continente, é preciso pensar no desenvolvimento interno do país, no crescimento mais autônomo, que não dependa tanto da dinâmica econômica mundial.
José Maria de Almeida (PSTU) – O que está em jogo é o controle da administração do Estado, localização que permitirá ao vencedor definir as políticas econômicas, ou seja, qual setor da sociedade será privilegiado com a distribuição dos recursos do país. É preciso registrar que as duas alternativas que se apresentam como favoritas na disputa eleitoral defendem o mesmo modelo econômico para o país. No governo FHC, privilegiaram-se banqueiros e grandes empresários, e no governo Lula também. Para os trabalhadores, como sempre, ficaram as migalhas das políticas sociais compensatórias.
Ivan Pinheiro (PCB) – Deveria estar em jogo um intenso debate sobre os grandes problemas nacionais, uma discussão ideológica, o confronto de projetos, a política externa brasileira, a integração da América Latina, a soberania nacional, a reestatização da Petrobras, a redução da jornada de trabalho, a reforma agrária e outros temas sobre o presente e o futuro do país. Infelizmente, as oligarquias e a mídia podem, com a força que têm, fazer desta eleição um par ou ímpar entre dois projetos de administração do capital, um capitaneado pelo PT e outro pelo PSDB. Há um risco de os candidatos desse campo, que disputam quem é mais eficiente para alavancar o capitalismo brasileiro, ficarem disputando qual mandato de oito anos (FHC ou Lula) apresentaram os melhores indicadores macroeconômicos.
Brizola Neto (PDT) – O que se joga nestas eleições é o direito que tem o Brasil – e o povo brasileiro – a ter um destino próprio. Vamos escolher se somos um país que, pelo seu tamanho, riqueza e capacidade, podem e deve participar da construção de uma nova ordem mundial ou se, simplesmente, seremos dóceis caudatários de uma inevitável transformação da velha ordem, que está visivelmente se desmanchando. O que está em jogo são inclusão e soberania, coisas que, em minha visão, não se separam. Não pode haver inclusão se não há mercado interno, salários ao menos decentes, boa educação, redução das desigualdades sociais e regionais, acesso pleno à informação e aos serviços públicos. Nada disso pode existir se não houver uma política de defesa do país, do aproveitamento interno de suas riquezas e dos frutos do seu trabalho, de um modelo de desenvolvimento que ao menos transite da natureza neocolonial que assumiu nas últimas décadas do século 20, para um projeto de autonomia, justiça e sustentabilidade.
Renato Rabelo (PC do B) – Para o PCdoB, estas eleições de 2010 têm uma importância estratégica especial. Até agora, o partido seguiu a diretriz de impulsionar o governo a efetivar a transição do domínio neoliberal para um projeto nacional progressista, defendendo-o, ao mesmo tempo, das investidas desestabilizadoras da oposição neoliberal e pró-imperialista. Dessa maneira, o PCdoB pôde guardar se de acompanhar o “cordão dos desiludidos”, que acabou sem alternativa política e tacitamente reforçando o campo oposicionista de direita. Hoje, quem não compreender que estamos diante de uma disjuntiva política central – prosseguir a “Era Lula” desenvolvendo-a, ou truncá-la com a volta da dupla demo-tucano de matriz neoliberal e alinhada ao imperialismo – ficará refém dos discursos contritos, de boas intenções, mas não contribuindo em nada para a efetiva transformação do país.
2.O que pode mudar no cenário político do País?
José Eduardo Dutra (PT) – O cenário político nacional, hoje, está bem definido em torno de dois grandes grupos. Um, a coalizão de governo encabeçada pelo PT e coordenada pelo presidente Lula, numa aliança de centro-esquerda que envolve parceiros históricos (PCdoB, PSB, PDT) e partidos que se somaram ao projeto e garantem a necessária governabilidade, com destaque para o PMDB. Do outro lado, está a oposição representada por PSDB, DEM, PPS e seus aliados na grande imprensa. Não há indícios de que esse cenário sofrerá grandes alterações até outubro. O resultado das eleições pode mexer as peças pra lá ou pra cá, mas acredito que qualquer mudança de fundo só acontecerá se conseguirmos fazer a reforma política, instituindo o financiamento público de campanhas eleitorais e o voto em lista fechada para os parlamentos.
Ivan Valente (Psol) – A persistir esse cenário, não haverá grandes mudanças. As eleições no Chile são um parâmetro interessante. O primeiro compromisso assumido pelo presidente eleito, que representa lá o espectro mais à direita da sociedade, foi se comprometer a dar continuidade à política econômica do governo de centro-esquerda de Michelle Bachelet.
Luiza Erundina (PSB) – Há temas estruturais estratégicos que precisam ser contemplados nos programas, e não basta ter nomes, sinalizar que fulano e beltrano são candidatos dessa ou daquela força política. É preciso que antes mesmo que se definam tais nomes, se apontem saídas e soluções e caminhos não só para atenuar esses problemas, mas para enfrentar o desenvolvimento e soberania do país. A democracia participativa tem que ser viabilizada através de uma reforma política que regulamente os dispositivos da Constituição de 1988.
José Maria de Almeida (PSTU) – Depende da evolução da situação política neste próximo período, não apenas das eleições. Mudanças que possam implicar em melhoria significativa e sustentada para os trabalhadores dependerão fundamentalmente do crescimento da resistência e da mobilização das massas, seja para enfrentar os efeitos da crise econômica que segue em curso, seja para defender melhorias em suas condições de vida. O debate eleitoral para a esquerda socialista, portanto, para além da apresentação de candidaturas e programas, deverá estar centrado no esforço para fortalecer a luta direta e a organização dos trabalhadores.
Ivan Pinheiro (PCB) – Se o debate for centrado na administração do capital, vai mudar muito pouco. Podem mudar os comandantes da máquina pública, do balcão de empregos e interesses. No mundo todo, a burguesia força a barra para estabelecer um bipartidarismo no campo da ordem, para afastar o risco de uma alternativa de esquerda. O que pode determinar mudanças no Brasil são fatores externos, como os desdobramentos da crise do capitalismo, a tendência do imperialismo a potencializar sua agressividade e outros fatores. As mudanças serão pequenas até porque Lula, na questão principal (a política econômica) manteve a orientação do governo FHC.
O que pode provocar alguma mudança, na realidade, é o fato de Lula não ser o Presidente a partir de 2011. Ninguém, como ele, tem a capacidade de fazer a conciliação entre o capital e o trabalho.
Brizola Neto (PDT) – Acho que já mudou. O nosso quadro partidário está desfeito, para não dizer arruinado. As identidades de pensamento, em maior ou menor grau, espalham-se pelos partidos. O que está em jogo é se os frutos da riqueza vão ser apropriados pelo país, de forma social ou se serão apropriados pelas empresas, na forma de lucros.
Renato Rabelo (PC do B) – Segundo um estudo divulgado pelo IPEA há alguns dias, o Brasil pode acabar com a pobreza extrema em um curto espaço de tempo desde que mantenhamos as políticas sociais e façamos correções no nosso regime tributário. Esse é um quadro inédito no país, e que foi construído ao longo dos últimos sete anos com as políticas do governo Lula. Hoje, o nosso povo tem perspectivas reais e concretas de melhoria de vida. Isso se reflete no cenário político. Se os tucanos voltarem ao poder, eles certamente irão tentar desmontar as políticas construídas neste governo, e também irão tentar atacar as conquistas sociais. Podemos ter um quadro de aguda crise entre o povo e o governo.
3.Quais são as principais questões em debate?
José Eduardo Dutra (PT) – De nossa parte, queremos debater soberania nacional, integração latino americana, fortalecimento do Estado, aprofundamento da democracia, políticas de recuperação de salário e renda, geração de empregos, combate às desigualdades socioeconômicas e garantia dos direitos fundamentais. Acredito que essas sejam as grandes questões pelas quais passam todas as outras.
Ivan Valente (PSol) – Corremos o risco de ficar na superficialidade da falsa polarização. O problema aqui é que a direita é tão truculenta, preconceituosa e protofascista – principalmente a que está à frente de alguns veículos da chamada grande imprensa e é aliada do tucanato, como a Veja, por exemplo –, que acaba por realçar os poucos elementos progressistas do governo Lula. É o caso da recém- -polêmica do Plano Nacional de Direitos Humanos, quando o governo foi tensionado e optou pela linha de menor resistência, recuou e fez acordo com os setores mais conservadores de dentro do próprio governo. A lógica que predomina é a de acobertamento das diferenças, assim, quem dá linha do governo são os setores mais conservadores, a base aliada mais fisiológica (como no caso da crise do Sarney) e o grande capital, que tem seus interesses intocados. É o governo que concilia o tempo todo, que não enfrenta o agronegócio, que faz genuflexão aos interesses dos ruralistas, como na questão do código florestal, que é um enorme retrocesso na questão ambiental no país.
Luiza Erundina (PSB) – O crescimento econômico, a questão da segurança pública, a questão urbana precisam ser enfrentados. É preciso melhorar a qualidade de vida nas cidades. A questão dos direitos humanos, das comunicações. É preciso superar esse estágio de atraso, de monopólio, de oligopólio das comunicações do país. Precisamos enfrentar a questão da reforma política, e fazer uma reforma tributária que de fato corrija a injustiça fiscal do Brasil.
José Maria de Almeida (PSTU) – Por um lado, veremos cada um com a sua linguagem, tanto Dilma como Serra defenderem a continuidade do modelo que aí está, sem emprego, sem reforma agrária, baseado na eliminação de direitos trabalhistas e sociais, na entrega das riquezas e recursos naturais do nosso país, para privilegiar os interesses das multinacionais e dos bancos. De outro, estará a esquerda socialista, defendendo as mudanças que nosso país precisa para que o povo trabalhador possa ter uma vida digna. Um programa apoiado na defesa de emprego e salário digno para todos; da reforma agrária e urbana; de serviços públicos de qualidade, gratuitos e acessíveis a toda a população na área de educação, saúde, moradia, transporte e outras e; por outro lado, na defesa da estatização do sistema financeiro e de todas as grandes empresas, colocando-as sob controle dos trabalhadores; do fim do latifúndio e do agronegócio; da reestatização de todas as empresas privatizadas; da apropriação pelo Estado de toda a riqueza do Pré-Sal e outros recursos naturais que nosso país tem; o fim de toda forma de discriminação racial, sexista e homo fóbica; o fim de toda forma de exploração do homem pelo homem, ou seja, uma sociedade socialista.
Brizola Neto (PDT) – A questão central é: de quem é este país, para quem é este país, o que almejamos para este país? São essas as questões mais difíceis de serem claramente respondidas pelas nossas elites. O resto é tecnocracia ou marketing. Talvez até mais que na eleição de Lula, a primeira, em sua ascensão dependeu de uma certa “carta de intenções” que o tornasse palatável. Agora, não, acho que as mudanças de rumo tomaram esse debate. Há uma base real sobre a qual a discussão da distribuição de renda, mercado interno, intervenção do Estado na economia, estatais e, sobretudo, a autonomia política e econômica do Brasil pode ser percebida pelas pessoas.
Renato Rabelo (PC do B) – A tendência mais provável é que o pleito de 2010 se desenrole numa polarização centrada na disputa entre os dois blocos políticos predominantes. A existência de mais de uma candidatura no campo lulista tenderá a ser efêmera sem o seu apoio. A candidatura de Marina Silva, pelo PV, terá mais influência em setores das camadas médias, podendo subtrair votos dos dois lados, sem, contudo, alcançar a dimensão de uma terceira via. O centro do debate deve ser o projeto para o país que cada candidatura representa. No campo da candidatura da ministra Dilma Rousseff, estão claros os compromissos com o crescimento do país, com o desenvolvimento e com o combate à pobreza e à desigualdade.
4.O que deve ser defendido pelas esquerdas?
José Eduardo Dutra (PT) – Partidos e lideranças de esquerda têm, como compromisso histórico a defesa da justiça social, da democracia e da cidadania plena. São essas bases que orientam a ação do PT desde sua fundação e, acredito, das demais representações de esquerda no Brasil. Mas cada qual tem seu próprio programa, sua própria análise da conjuntura política e suas próprias estratégias. Evidentemente, não cabe a mim dizer o que elas devem ou não defender nesse momento histórico específico. O PT tem um programa de esquerda para o Brasil e está aberto a críticas e colaborações.
Ivan Valente (Psol) – A mudança no modelo econômico. O combate real à desigualdade social com o fortalecimento do Estado como provedor de serviços públicos básicos que sejam universalizados e de qualidade. A luta pelo aprofundamento da democracia e da participação popular como elemento central para promover a inclusão social. O combate à corrupção, sem cair no viés moralista, mas que de fato é um modo de operação intrínseco ao sistema capitalista e que compromete a administração pública e a disputa política democrática, a exemplo do financiamento privado das campanhas eleitorais. A luta ambiental, que coloca em questão o próprio padrão de desenvolvimento capitalista e as forças destruidoras do livre mercado. Enfim, o enfrentamento desse modelo concentrador de renda e riqueza apontando para uma perspectiva socialista.
Luiza Erundina (PSB) – A reforma agrária e urbana não foi resolvida, a reforma política também não. A reforma tributária também não, portanto, temos que enfrentar essas questões estruturais que estão intocadas mesmo nesses últimos governos. Com certeza, o campo democrático popular deve reafirmar esses princípios. Veja a celeuma que se levantou com esse plano de direitos humanos que não é outra coisa senão a sistematização das decisões das propostas que a sociedade brasileira vem construindo ao longo dos anos nas conferências nacionais, seja nos direitos humanos, educação, saúde. De repente há uma celeuma em torno de aspectos que são privilégios de uma minoria que continua os mantendo e os reproduzindo.
José Maria de Almeida (PSTU) – A esquerda socialista tem a obrigação de se apresentar para combater as alternativas que representam os interesses do capital nas eleições. Isso inclui tanto a candidata de Lula, Dilma Rousseff, como o candidato Serra, do PSDB/ DEM. Implica em lutar também contra candidaturas como a de Marina Silva, que se travestem de novas, mas que não são nada mais que parte do velho. A própria candidata Marina já tratou de esclarecer que o modelo econômico que ela defende é “o mesmo que vem sendo implantado no país desde 1995”. A esquerda precisa fazer da campanha eleitoral um meio para fortalecer as lutas e as organizações dos trabalhadores. Sabemos que não será via eleições e sim pela luta direta que criaremos as condições para realizar uma transformação socialista em nosso país. A melhor forma de dar conta dessa tarefa seria através de uma frente de esquerda, que reunisse os partidos da esquerda socialista brasileira que estão na oposição de esquerda ao governo Lula.
Ivan Pinheiro (PCB) – Primeiro, temos que precisar o que significa esquerda hoje, nesta diluição ideológica e nesta manipulação de conceitos. Os sociais- democratas e sociais-liberais que apóiam incondicional e sistematicamente o governo Lula se consideram “de esquerda”. Vou falar, portanto, do que considero como esquerda, um campo político que, à falta de definição melhor, posso chamar de esquerda revolucionária ou esquerda socialista, aquela que não quer reformar o capitalismo, mas superá-lo. Portanto, penso que a verdadeira esquerda no Brasil deve envidar esforços no sentido de criar uma frente, de caráter anticapitalista e antiimperialista, permanente, para além das eleições, voltada para a luta de massas. Essa frente deve incorporar, além dos partidos políticos registrados no TSE, todas as organizações políticas, político-sociais e movimentos populares que se coloquem no campo da superação do capitalismo, na perspectiva do socialismo.
Brizola Neto (PDT) – Está claro que é essa visão de país. Veja o caso da educação, por exemplo: se você tem uma visão de desenvolvimento nacional soberano e ama as pessoas, não pode deixar de encarar como um desafio natural escolarizar, com qualidade e atenção total, todas as crianças e jovens brasileiros. É uma conclusão quase automática, flui naturalmente dessa idéia de amor, respeito e atenção ao povo brasileiro. O nosso desafio será dar a base política para se fazer muito do que Lula fez e muito do que não pôde fazer. E sei que o próprio presidente pensa assim, se não teria escolhido a candidata que escolheu, com a história que Dilma traz. Para não ir além, tinha outras pessoas para optar.
Renato Rabelo (PC do B) – A esquerda deve defender o avanço do crescimento e do desenvolvimento. Essa posição balizou este governo e nos permitiu ser um dos últimos países a entrar na grave crise mundial e um dos primeiros a sair dela. Nós defendemos que as conquistas devem ser defendidas e apoiadas, mas devemos ir além. É necessário que o Brasil discuta a carga tributária que onera a produção e penaliza os mais pobres. É necessário também que discutamos o aprofundamento da nossa democracia enfrentado temas como a democratização das comunicações, a necessidade de uma reforma educacional, o avanço da reforma agrária, e também a importância de realizarmos uma reforma urbana.
5.Como os movimentos sociais podem interferir?
José Eduardo Dutra (PT) – Mobilizando suas bases, formulando propostas e pressionando os governos. O movimento social é um dos pilares da democracia. No Brasil, movimentos como a CUT, o MST e a UNE – só para citar alguns – têm sido determinantes na construção de políticas públicas voltadas para a maioria da população e para grupos historicamente marginalizados.
Ivan Valente (Psol) – Uma parte considerável dos movimentos sociais foi cooptada pelo poder do bloco governista. Houve um rebaixamento programático do conjunto de suas reivindicações e projetos. Outra parte sofreu um duro combate da grande mídia, do Poder Judiciário e da repressão estatal. O ideal seria a retomada de uma postura mais combativa e autônoma em relação ao governo federal, que recolocasse a pauta dos movimentos que ficou congelada nos oitos anos de governo Lula. Há espaço político para a retomada de um movimento mais combativo, a própria articulação de vários setores pela construção de uma nova central, a resistência do MST e de movimentos de luta contra a opressão de gênero e raça, a luta ambiental.
Luiza Erundina (PSB) – Lamentavelmente, a partir de um certo momento, até pela conquista do governo federal e de alguns estaduais e municipais, houve um certo recuo dos movimentos. Imaginou-se o seguinte: “o governo federal é nosso”, mas isso é insuficiente. É preciso haver soberania popular, democracia direta e organização autônoma independente de quem esteja no governo. Precisa-se ter um plano estratégico de desenvolvimento nacional, que tem que estar no centro do debate. A sociedade civil poderia dar uma contribuição importante nisso, como está dando em certas áreas. O MST com a luta pela reforma agrária é exemplo disso.
José Maria de Almeida (PSTU) – Os movimentos sociais, apesar de serem instituições diferentes dos partidos políticos, e de terem tarefas diferentes junto aos trabalhadores, também têm responsabilidade e tarefas mediante os processos eleitorais. É da natureza da sociedade capitalista essa concentração da riqueza que condena a maioria da população, aqueles que trabalham, a viver em situação cada vez mais precária. Por isso, os movimentos sociais, na medida em que lutam pelo atendimento das demandas dos trabalhadores que representam, precisam também lutar contra o capitalismo e colocar nas suas lutas a construção de uma sociedade socialista.
Ivan Pinheiro (PCB) – Os movimentos sociais têm um papel fundamental a desempenhar no processo de mudanças sociais, desde que não se limitem à esfera de sua atuação específica, à parcialidade da luta. O MST é um excelente exemplo de um movimento social, a meu ver o mais importante do Brasil, que soube compreender isso. Hoje, o MST não é apenas um movimento social, mas incide na questão política, como a luta em defesa da Petrobras e até na solidariedade internacional. Por isso, temos defendido que os movimentos populares participem da frente anticapitalista e anti-imperialista, no mesmo espaço com organizações políticas.
Brizola Neto (PDT) – A pior coisa que pode acontecer em um governo de esquerda é que eles se acomodem, assumam a condição de chapa-branca e se desqualifiquem como representações múltiplas da sociedade. Não se tornarem simples correias de transmissão do governo e ter a coragem e o equilíbrio de dizer e enfrentar aquilo que está errado, sem a cegueira de uma oposição que esquece os avanços e as dificuldades encontradas. Porque quanto mais fortes e lúcidos estiverem esses movimentos, mais podem dar ao governo as condições políticas para avançar e mais podem, na contramão, proteger o governo contra as ofensivas da direita.
Renato Rabelo (PC do B) – É fundamental para o êxito do empreendimento liderado por Lula o protagonismo crescente dos movimentos sociais. Esses, por sua vez, também têm total interesse na vitória desse bloco político. Nesse sentido, merece nossa atenção o redobrado apoio às articulações unitárias das centrais sindicais dos trabalhadores em torno de suas bandeiras mais candentes, como a diminuição da jornada de trabalho sem redução de salário, a formalização plena do mercado de trabalho e a proposta da CTB de convocação de uma conferência nacional da classe trabalhadora (CONCLAT). Alavancar os movimentos sociais na sua pluralidade e variedade de setores e funções é o meio para que possam exercer o papel de força motriz das mudanças de fundo do país.
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14/09/09O Fluminense: “A Petro-Sal é necessária”
A bancada fluminense na Câmara dos Deputados, em Brasília, emplacou um representante na presidência da comissão especial que irá analisar a proposta de criação da estatal Petro-Sal, que cuidará da exploração do petróleo da camada do pré-sal no País. Trata-se do deputado federal Brizola Neto (PDT), de 30 anos, indicado pelo partido e pelo próprio presidente do Legislativo, deputado Michel Temer (PMDB-SP). A votação deverá ocorrer a partir de novembro. O pedetista afirmou que irá defender os interesses do Estado do Rio na distribuição dos royalties do pré-sal. O parlamentar é também autor de uma emenda ao projeto que cria o Fundo Social, destinando recursos para o ensino integral. “É o resgate de um programa de meu avô”, diz, referindo-se ao ex-governador Leonel Brizola.Indicação - Me sinto muito honrado por ter sido indicado (para presidir a comissão especial que trata da criação da Petro-Sal) pelo meu partido e o Michel Temer (presidente da Câmara). Foi uma costura entre o PMDB e o PDT. Pesou a tradição do trabalhismo e a luta do meu avô (o falecido ex-governador Leonel Brizola). Nós analisaremos a proposta do governo e as emendas a serem feitas pelos parlamentares. O relator será o deputado Luiz Fernando Faria (PP-MG). Ele irá receber o projeto e as emendas. Em seguida, fará um relatório, que será discutido e votado pelos membros da comissão. O documento dirá o que poderá ser aproveitado das emendas e votado em plenário. Aprovado o relatório pela comissão, ele irá a plenário. O prazo para a apresentação das emendas é o próximo dia 18. Temos até 11 de novembro para encaminhar o projeto da Petro-Sal à votação em plenário.
Petro-sal – A necessidade de criar a estatal surgiu em virtude do governo anterior (FHC), que mudou o marco regulatório do petróleo, pondo fim ao monopólio estatal no setor e abrindo a exploração para empresas privadas e multinacionais. Hoje não é mais possível tornar a Petrobras novamente 100% nacional, já que FHC abriu o capital da empresa até para estrangeiros. Então, foi necessário criar uma nova estatal para controlar a exploração do pré-sal. A Petro-Sal irá gerenciar os recursos da exploração.
Dirigentes – Não defendo isso (que os dirigentes da nova estatal a ser criada sejam aprovados pelo Congresso, como querem alguns parlamentares). Não seria viável que o Congresso avaliasse os dirigentes da empresa. No início, serão transferidos quadros da Petrobras e outros, por livre nomeação. Depois, os cargos serão preenchidos através de concurso público. É o que defendo.
ROYALTIES - Essa será a segunda etapa (discussão sobre a distribuição dos royalties da exploração do pré-sal). A primeira é a defesa da soberania. Os lucros serão nossos não apenas quando o pré-sal está no subsolo, mas no momento da exploração também. Com o marco regulatório, de 70 a 80% dos lucros ficarão no País. Vamos garantir que o Rio mantenha os seus direitos na distribuição dos royalties, além da participação especial.
URGÊNCIA – O presidente Lula atendeu a um apelo de Michel Temer e de lideranças partidárias (ao retirar o pedido de urgência constitucional da análise dos projetos sobre a exploração de petróleo na camada pré-sal). Se não fizesse isso, não seria possível votar o marco regulatório até o fim do ano, pois a oposição obstruiria as votações após 45 dias. Ela imobilizaria o Congresso. Teremos tempo para analisar a proposta tranquilamente.
EMENDA – Pelo projeto do governo os recursos irão para a educação. Nossa preocupação é que a União destine verbas para a qualificação do ensino público, de turno integral, que nunca recebeu muitos recursos. Irá alavancar a educação no País. É o resgate de um programa de meu avô.
O Fluminense
07/08/09Antônio de Pádua Ferreira da Silva, 86 anos: a história vive
O perfil do Professor Pádua está no Livro dos Expurgos da UFRGS, relançado pela Adufrgs, 30 anos depois de ter sido escrito. A reportagem da Adverso foi entrevistá-lo para conhecer um pouco mais sobre esse período na Universidade. Porém, descobriu que há outros capítulos mais interessantes de sua biografia. Junto com Leonel Brizola, Pádua fundou o Partido Trabalhista Brasileiro – o PTB. Era amigo também de Alberto Pasqualini, cujo único pedido ao partido em toda a carreira política foi para que incluíssem seu nome na nominata de candidatos em 1958, ano em que Brizola foi eleito Governador do Rio Grande do Sul. “Não te importes com o voto. Essa é a oportunidade de tu apresentares a ideologia trabalhista, e não te esqueças que está na hora do nacionalismo”, ouviu da boca do senador. Também estava ao lado de Jango em Porto Alegre quando o presidente decidiu não resistir ao Golpe Militar, contrariando a vontade de Brizola e até do III Exército, que iria fornecer o armamento. “O Jango foi iluminado porque seria um derramamento de sangue”, reflete.
Por: Naira Hofmeister
Como o senhor entrou para a política?
Foi na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Tirei Matemática. Na época, a Ufrgs chamava-se Universidade de Porto Alegre e pertencia ao Governo do Estado. Fui eu quem iniciou a campanha pela federalização, quando era presidente da União Estadual dos Estudantes, entre 1944 e 45. Já naquela época, o Estado não tinha o potencial financeiro para fazer a universidade que queríamos.
Foi no movimento estudantil que conheceu Brizola?
Sim, na Casa do Estudante começou a circular um jovem muito falante e interessado em me conhecer, diziam. Ele queria fazer uma campanha para que os civis tivessem os mesmos benefícios que os estudantes militares, que ganhavam para estudar. Era um moço pobre, tinha sido engraxate. Até que um dia me apresentaram Leonel de Moura Brizola.
E juntos fundaram o PTB…
Eu estava ao lado dele naquele dia de 1945. Tanto que o primeiro presidente da Ala Moça foi o Brizola, o segundo, fui eu.
O senhor também conheceu Alberto Pasqualini?
Eu era muito amigo dele, mas com 20 anos de diferença. Nos conhecemos em uma palestra na faculdade. Simpatizamos um com o outro e passei a secretário particular dele. Ele não gostava muito de dirigir. Então, durante sua campanha de 1947 para governador do Estado, toda o trajeto feito de automóvel, eu que dirigi.
Ele foi o primeiro candidato ao Executivo pelo PTB?
Foi quando o partido cresceu mesmo, na eleição e 19 de janeiro de 1947. Foi a primeira depois do Estado Novo. Com a campanha do Pasqualini elegemos 23 deputados dos 55! E 16 eram da colônia: o Mincaronne, de Bento Gonçalves; o Celeste Gobbato, de Caxias… Houve um deslocamento da política, que, antes, era feita pelos fazendeiros, principalmente da fronteira.
Mas o Pasqualini não se elegeu.
Ele perdeu por 19 mil votos e vou te dizer por quê. Uma semana antes da eleição, o Luis Carlos Prestes esteve em Porto Alegre para fazer um comício em apoio à candidatura do Jobim, do PSD (futuro Arena). Os quatro deputados do PC somaram 30 mil votos, o que daria a vitória ao Pasqualini. O Jobim ganhou por causa do apoio dos comunistas e os meteu na cadeia, com a ida do PC para a ilegalidade, pouco tempo depois de ter assumido.
E o senhor nunca se candidatou?
Em 1958, na Convenção Estadual do PTB, quando o Brizola foi candidato a governador, descobri que o meu nome aparecia na chapa, para deputado estadual, mas ninguém tinha me consultado. Havia sido um pedido do senador Alberto Pasqualini – foi o único que ele fez em toda a sua trajetória política. Eu não tive dúvida: sai dali, fui na Varig, que era na Rua da Praia, e tirei passagem pro Rio de Janeiro. Queria saber por quê.
Descobriu?
O que Pasqualini queria não era me eleger. “Não te importes com o voto”, me disse. “Mas é a oportunidade de tu apresentares a ideologia trabalhista. E, não te esqueças, de que está na hora do nacionalismo”. Ele queria que eu difundisse os princípios trabalhistas para as bases. Então, onde é Alvorada hoje, chamava-se Passo do Feijó e era 4º distrito de Viamão. O operariado morava lá e com o apoio deles fiz 60 comitês. Durante anos e anos, sempre ficamos em primeiro lugar lá – até o golpe de 1964, porque depois mudou tudo. Lá era tudo nosso.
O senhor falava aos trabalhadores sobre nacionalismo?
Claro! Pegava dados da economia brasileira e mostrava os números: quem é que ficava com os lucros do nosso trabalho, o fruto do suor do trabalhador. Ia tudo pro estrangeiro! Como decorrência da campanha, foram criados os dois primeiros núcleos do Movimento Nacionalista: estudantes da Faculdade de Ciências Econômicas (hoje Ufrgs) e do Colégio Júlio de Castilhos. Os dois lugares onde eu lecionava…
Mas nunca teve pretensões políticas?
Em 1962 fui candidato a deputado federal. Percorri esse Estado inteirinho! E naquela época não tinha esse negócio de pedir financiamento de campanha, eu fiz com o meu dinheiro, fiquei anos pagando depois! Fiz comícios enormes e o pessoal dizia que eu seria o mais votado. Só que eu fiz 5.900 votos, ou 7.000 – não me recordo mais… Nessa época, com 12 mil, estava eleito.
O que houve?
Descobri que o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), que era dirigido pelo general Golbery de Couto e Silva, acompanhava os comícios e oferecia dinheiro aos meus cabos eleitorais. E assim me tiraram voto que não foi brinquedo. Fizeram tudo para conseguir a maioria deles lá no Congresso. Eu que seria o mais votado nem me elegi…
Mas isso foi antes do Golpe de 1964.
Sim, em 1964 eu fui cassado. Fui preso na primeira leva. Aí eu não podia falar com ninguém. Se eu cruzasse contigo na Rua da Praia e trocasse alguma idéia, tu imediatamente eras chamada ao Dops (Departamento de Ordem Política e Social) para saber o que é que tinha falado comigo. Eu simplesmente evitei falar com as pessoas.
O senhor foi cassado na Ufrgs ou no Julinho?
Eu era fiscal do IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários) concursado, redator do Correio, professor no Júlio de Castilhos e nas Ciências Econômicas – além de presidente de uma cooperativa de crédito que eu havia fundado. E de repente, me cortaram tudo! Até o telefone foi grampeado!
Mandaram o senhor embora do Correio do Povo também?
Do Correio eu saí antes. Pedi ao doutor Breno Caldas para ir embora quando ajudei a fundar o Movimento Nacionalista. Nos 14 anos que trabalhei lá, nunca me disseram para não escrever a favor ou contra uma determinada coisa. Entretanto eu sabia que não podia criticar padre, militar e americano.
Os americanos?
Claro! Quem é que mantém toda a mídia no Brasil? Não são os americanos? Até a Renner – que patrocinava o Correspondente – é dos americanos agora… E eu não podia ser uma pessoa diferente lá dentro. Então o doutor Breno me deu uma licença sem vencimentos. E estou assim até hoje… tanto é que eu sou registrado como jornalista profissional no Sindicato.
O jornal trabalhista na época era a Última Hora.
A Última Hora era diferente. O Samuel Weiner veio a Porto Alegre e falou com o Pasqualini para conseguir um chefe da sucursal que ele ia fazer aqui. Pasqualini me indicou, mas eu não tinha tempo… Achei melhor apresentar alguém que pudesse fazer o trabalho, e passei para outro colega do Correio, o Neu Reinert.
Como foi o dia 1º de abril de 1964?
Eu estava na casa do comandante do III Exército na hora em que o Jango não aceitou a sugestão de Brizola para que houvesse reação ao golpe; saiu de lá para pegar o avião para ir pro Uruguai. Ele não queria derramamento de sangue.
O senhor concordava com Brizola em resistir?
Nós estávamos teimando tanto que combinamos com o comandante que ia levar o Jango até o aeroporto e voltar para atacarmos o Palácio Piratini. Eu ia pegar o pessoal que estava na frente da Prefeitura para juntar todo mundo lá. O armamento a gente ia conseguir com o III Exército. O combinado era dar um tiro de canhão quando eles estivessem chegando. E até hoje eu estou esperando esse tiro de canhão.
O Jango não aceitou…
Hoje eu acho que o Jango tinha razão. Naquela época, eles já estavam com tudo preparado para fazer o Brasil do Norte e o Brasil do Sul. Que nem a Coréia e o Vietnam, que eles dividiram. Mas aí iríamos ter um banho de sangue para provavelmente perder. Então não compensava mesmo e o Jango foi iluminado ao resistir.
Mas com isso veio o Golpe.
A ditadura não foi contra o comunismo, foi contra o trabalhismo! Comunismo era a desculpa. Fizeram contra o Brizola e contra as reformas de base. O pessoal não tem noção do que foi a ditadura: uma coisa pavorosa. Eu não passei pela tortura porque em 1970 eles me largaram de mão e nas duas vezes que fui preso em 1964, era muito respeitado. Mas conheci muita gente que foi.
Mas o Getúlio Vargas também foi um ditador.
A melhor ditadura que pode haver, por melhor que seja, sempre vai ser pior do que a pior democracia. Ainda assim, digo que tudo o que tem de básico no Brasil foi feito nesse período: entre 1937 e 1945. O Juscelino quando fez os 50 anos em 5, o fez baseado na estrutura montada pelo Getúlio no Estado Novo.
O senhor acha que era preciso um regime autoritário para fazer as reformas?
E nem assim… Por exemplo, o salário mínimo fazia parte das idéias do Getúlio já na Revolução de 30. Em 1936, saiu uma Constituição que falava no Salário Mínimo. Pois bem, faltava apenas a regulamentação. E sabe quando o Getúlio pôde fazer? Em 1942! E assim mesmo com a desculpa de esforço de guerra!
O senhor seguiu Brizola para o PDT?
Quando fomos registrar o PTB – depois da ditadura – fazia cinco minutos que o pedido da Iara Maria Vargas tinha entrado. Como não era possível concordar com a constituição do PTB oferecido pela Iara, o Brizola liderou a fundação o PDT (Partido Democrático Trabalhista).
Como foi escolhido o nome?
O “Democrático” foi uma sugestão do Evaristo Arns – na época, Cardeal de São Paulo. Brizola e vários companheiros, inclusive eu, defendíamos que deveria ser Partido Democrático Trabalhista Nacionalista. Mas a maioria dizia que o nacionalismo já estava implícito no trabalhismo. E o Brizola perdeu na convenção de fundação do PDT! E depois ouço as pessoas dizerem que ele era ditador, caudilho… Ele foi derrotado muitas vezes, mas sempre reagiu democraticamente.
Depois da fundação do PT o trabalhismo perdeu espaço…
Mas acho que vai voltar. A diferença entre a doutrina trabalhista e as demais é conceitual. No capitalismo, o dinheiro é o principal. O trabalho serve para conseguir capital. No trabalhismo é ao contrário: é o trabalhador que é importante e o capital, apenas um elemento, um instrumento para que haja o trabalho. É essa a diferença fundamental.
18/07/09” A televisão é que faz o Estado, a televisão faz a política…”
Gilberto Vasconcelos, escritor, sociólogo e professor universitário, é também um mestre da comunicação. Autor de vários ensaios sobre a televisão, a mídia e a linguagem política, sobretudo a de Leonel Brizola, agora parte para fazer vídeos. Ele quer fazer uma atualização de sua produção ensaística, que visa subverter os signos produzidos pela mídia hegemônica. Nesta entrevista ao Tijolaço, Giba, como o conhecemos, adverte que os partidos de esquerda não podem continuar a imitar os signos da direita: “Eles vão dar com os burros nágua”, diz, “porque ela faz melhor. Ela tem o arsenal na mão”. Outra crítica que faz é o que classifica de “telenovelização” da política brasileira, “uma combinação de programas de auditório com telenovela”.
Para ele, o partido de esquerda tem medo de ousar, tem medo de partir para outra linguagem, porque tem medo de furar a norma dominante. A norma ficou tão dentro da cabeça do povo, que qualquer alternativa, qualquer crítica nova, ou subversão da norma, o povo não vai entender. O escritor engajado parte então para a ação, com o que ele chama de Kivideobiopsicomassafolk, onde ele ainda aborda o rádio, o dólar contra o etanol, a criminalidade acdêmica, o golpe de estado no Maranhão, capitalismo e crise financeira.
Você agora está partindo para o cinema, ou, mais exatamente, para o vídeo…
GV – O cinema foi sempre a minha reflexão. Eu escrevi um livro sobre o Glauber Rocha, que se chama “Glauber Pátria Rocha Livre”. Agora, estou partindo para o vídeo porque é mais barato e tem maior acesso. Então, comecei a fazer alguns vídeos baratos com um efeito contra-informacional.
Como é esse efeito contrainformacional?
GV – É um efeito contra a mídia dominante…
É uma alternativa?
GV – Na verdade, é uma tentativa de subverter os signos produzidos e apresentados pela mídia hegemônica. Não só a mídia audiovisual como a escrita, aqui incluída a produção acadêmica. O Objetivo é fornecer uma resposta imediata. E esta produção se chama Kivideobiopsicomassafolk. Kivídeo é uma paráfrase de Kinema, como escrevia o Glauber, puxando pelo grego. Então, vem depois, bio, de biologia, psico, de psicologia, massa, de volume, e folk, de folclore. É uma espécie de anagrama, uma aglutinação típica da língua alemã.
Então, você tem essa proposta e já está ativo, com alguns vídeos na internet. Quantos vídeos já estão prontos?
GV - O primeiro é “Esporte Mata”, depois a “Criminalidade Acadêmica”, “O dólar contra o sol na terra do Etanol”, “Kivídeorádio”, “Golpe de Estado” (cassação do governador do Maranhão, Jackson Lago) e “Capitalismo e Crise Financeira”. Agora, estou realizando “Darcy (Ribeiro), gênio da Raça”.
Esses filmes têm o que, 20 minutos?
GV - Uns tem três, outros oito, outros 25. Não há um parâmetro de duração.
É, porque o Yotube e outros sites de vídeo limitam os vídeos a uma duração de 12 minutos, outros um pouco mais. Essa sua proposta visa difundir a cultura, mensagem política, movimento intelectual. Como você classificaria essa sua inserção no meio cinematográfico e do vídeo?
GV -É uma atualização audiovisual da minha produção ensaística…
Essa produção envolve seus livros, seus artigos, suas palestras pelo Brasil afora, suas aulas na Faculdade de CIências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Mas você antes tinha um certo questionamento em relação à internet, dessa massificação total da cultura. Você superou essa visão? Ou era um certo receio tecnológico?
GV – Olha, eu nunca fui tecnofóbico, mas sempre vi a tecnologia como uma forma de dominação do império, porque ela sempre foi estrangeira. Eu, por exemplo, não gosto de usar como matéria prima nada que venha do Google ou de outro dessas corporações gigantes. É que tudo que vem delas vem permeado de ideologia.
Mas você há de convir que o Google acaba propiciando espaço também para as forças populares. Veja aí o exemplo da Telesur (a Televisão do Sul, multiestatal. sediada em Caracas) e sua cobertura do recente golpe de estado em Honduras, juntamente com seu próprio site na internet e outros blogs independentes. Sem as denúncias da Telesur e esses outros sites, a violência daquele golpe poderia ter caído no esquecimento.
GV – Você tem razão. Por isso eu digo que eu não tenho uma repulsa, mas não sou um devoto, digamos, acrítico, diante da tecnologoia, que é sempre de origem externa. Isso é controlado. Não vamos achar que a internet é a redenção, que a internet vai trazer o socialismo. É que isso aí é propriedade das classes dominantes, é do capital. Você tem que ver que a tecnologia é a ideologia dominante. Não é à toa que o Álvaro Vieira Pinto escreveu um livro de duas mil páginas, “Conceito de Tecnologia”. A tecnologia é hoje a palavra mais usada no mundo inteiro, mais que a Coca-Colla. Agora, isto não quer dizer que vamos desprezá-la. Nós temos que usar as brechas que ela nos oferece para difundir nossa mensagem. No vídeo sobre o rádio….
O Kivídeorádio?
GV – Sim, o kivideorádio é uma reflexão sobre o que o Hitler fez no rádio e, aqui, no Brasil, o Leonel Brizola, com aquele uso maravilhoso desse veículo. São dois usos distintos. Segundo o Walter Benjamin, da Escola de Frankfurt, o Hitler subiu por causa do rádio. O Hitler tinha uma dicção radiofônica. Repare aí que, diante de um mesmo objeto tecnológico, você tem o uso liberticida, hitleriano, e o uso libertário brizolista. É como no cinema, de um lado, você tem um Glauber, e de outro, você tem um Rambo. Tem Hong Kong e também Godard.
Gilberto, você é professor universitário e uma vez se queixou para mim que ninguém gosta de ler, inclusive os estudantes. Ninguém lê mais nada. A que você atribui este desprezo pela leitura?
GV – Isso é muito complexo, mas a videoesfera sem letra pode provocar essa inércia…
Você se refere à TV, ao videogame?
GV – A videoesfera desprovida de gnosis (conhecimento).. Por isso que eu digo, uma coisa é você ver um filme do Glauber, que é igual a ler um livro. Já a Xuxa… Aliás, eu escrevi “O Cabaré das Crianças”. E, num país ágrafo, como o nosso. Dizia o Darcy Ribeiro que o Brasil é um país que pulou a letra para a televisão.
E a internet, que obriga você a escrever, não vai melhorar essa inércia de que você fala?
GV – Pode melhorar, se bem que pode dar uma padronização na escrita. Eu acho que a internet está eliminando o estilo individual. Você abre um jornal, qualquer jornal, é tudo igual. Todo colunista é igual. Não tem um charme, não tem luz própria, não tem um estilo. E o estilo é o homem. Se não há estilo, não há homem.
Isso pode ser fruto do pensamento único, dominando aí tudo?
GV – É, também. Não há mais dicção. É inimaginável hoje o aparecimento de uma dicção do tipo do Brizola. A televisão, com essa rapidez totalitária, essa pressa fascista, ela impede uma dicção à Brizola.
Você fala de dicção no sentido de pregação…
GV – Sim, e a ordenação do raciocínio. O descenso mental e estilístico do político brasileiro é uma tragédia.
Dizem que o Brizola perdeu para o Collor, em 1989, porque ele pregava e explicava as nossas mazelas e o Collor se valia dos slogans, dos bordões super-rápidos.
GV - É, o Collor era a publicidade, do estilo anacoluto, ou seja, que não tem pé nem cabeça. A anacolutia era a marca estilística do Collor. Agora, ele está indo à biblioteca e melhorando um pouco. A sintaxe do Collor, na campanha, era completamente anacolútica, como aliás a sintaxe da direita, que é puramente fragmentada, enquanto que a do Brizola era coordenada, totalizante, queria a busca do todo. E esse procedimento se chocou contra a média mental do povo brasileiro, que está fundamentada na intermitência da atenção. Ninguém consegue mais prestar atenção. No limite, não há mais conversa. A conversa está agonizando….
Finalmente, como você vê isso que passou a se chamar de terrorismo ou totalitarismo midiádico? A mídia como o superpoder, acima de todas as instituições, políticas e culturais?
GV -O terrorismo midiático é fruto do terrorismo do capital. Desde a campanha do Collor, ficou escancarado que a televisão é que faz o Estado, a televisão faz a política… A mídia, porque a televisão é a mídia mais poderosa e ponta de lança do imperialismo…
E tem a internet, que açambarca ainda mais que a televisão, porque inclusive a televisão já está dentro da internet…
GV – É, mas a novela de televisão define muito mais o voto do que a internet. O que vemos hoje é uma telenovelização da política. A política hoje no Brasil é uma combinação de programas de auditório com telenovela, e isso vai do Palácio ao vereador. Por isso que eu defendo que um partido de esquerda tem que subverter isso. O nosso kivideo tem como objetivo sabotar, fazer uma contra-informação, porque você, partido de esquerda, querer reproduzir a mídia dominante, vai dar com os burros n’água. Porque ela faz melhor. Ela tem o arsenal na mão. Então, você não pode reproduzir o signo hegemônico da mídia dominante. Foi esse o equívoco da campanha audiovisual do Brizola em 89. Deveria ter sido uma subversão do signo da Rede Globo. Formalmente, eu digo. Não adianta você ter um conteúdo de esquerda com uma fórmula de direita. O problema é que o partido de esquerda tem medo de ousar, tem medo de partir para outra linguagem, porque tem medo de furar a norma dominante. A norma ficou tão dentro da cabeça do povo, que qualquer alternativa, qualquer crítica nova, ou qualquer subversão da norma, o povo não vai entender. Isso é diabólico. Você acaba tendo partido de conteúdo de esquerda com forma de direita. Outro problema é que o partido de esquerda não tem informação audiovisual, não tem cultura cinematográfica, não tem cultura pictórica.
E o partido de direita tem?
GV – O partido de direita tem o capital, que é tudo isso, publicidade, televisão, mídia.
……..
18/05/2009Brizola Neto denuncia rapina do nióbio na “Caros Amigos”
Deputado Federal do PDT, neto de Leonel Brizola, fala da defesa dos recursos naturais, da sua trajetória política e da luta contra a exploração das multinacionais.
Gilberto Felisberto Vasconcellos: Que questões envolvem o nióbio no Brasil?
Brizola Neto: Toda indústria de alta tecnologia é altamente dependente do nióbio, não tem turbina de avião, não tem turbina de termoelétricas, não tem oleoduto se não tiver nióbio, porque ele é anticorrosivo. E o dado importante, é que justamente 95% das reservas de nióbio do mundo concentram-se só nas minas amazônicas, onde está demarcada a Reserva Raposa do Sol, sem serem exploradas. Há uma mina em atividade em Araxá, Minas Gerais, uma associação do grupo Moreira Sales com o grupo Rockefeller, a Cia. Brasileira de Mineração de Metais-CBMM. que vendem internacionalmente o nióbio a um preço abaixo do custo. Fato grave é que mesmo sendo o único exportador no mundo deste minério estratégico, o nosso país não é sequer capaz de determinar o preço do nióbio no mercado externo. Nos momentos de baixa dos valores das comodites como ocorre na crise atual, o preço da extração e do refino fica superior ao valor em que é cotado na bolsa de Londres, em média U$ 90 o kilograma. Na jazida atualmente mais explorada, em Araxá, Minas Gerais, a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) pertencente ao grupo Moreira Salles associado a multinacional MOLYCORP, do grupo Rockefellerr, exporta 90% do nióbioo extraído. Isso é mais um exemplo deplorável da simbiose da burguesia nativa com os interesses das grandes corporações multinacionais que engordam o imperialismo. Com o deputado mineiro José Fernando Aparecido, a gente tem lutado na Câmara por um novo marco regulatório na questão mineral no Brasil. Dá mais de um trilhão de dólares o nióbio que você tem hoje na Amazônia. Isso com preço estipulado lá na Bolsa de Londres, abaixo do custo, sem levar em conta a importância que tem o nióbio hoje na indústria, principalmente na indústria de ponta. É mais um caso da história de 500 anos de espoliação internacional do Brasil.
Renato Pompeu: A sua intervenção no Congresso teve repercussão na mídia?
Brizola Neto: Olha na grande mídia a gente pode dizer que essa repercussão ela realmente não acontece, e ai a gente entende inclusive as pressões que deve haver dos grandes grupos multinacionais nesse sentido, talvez os grandes anunciantes e sustentadores da grande mídia. Só para dar um exemplo, nós fizemos uma convocação na Comissão de Minas e Energia, requerimento meu e do deputado José Fernando Aparecido, convocando, para que se explicasse esse processo de privatizações da Companhia Vale do Rio Doce, o ex-presidente Fernando Henrique, o ministro das Minas e Energias na época do governo Fernando Henrique, o senhor Roger Agnelli, que comprou a Vale, para explicar por que a venderam pelo preço de seis meses do seu faturamento. E mais, o mais grave, a Constituição Federal diz que quem detém o solo não detém o subsolo, que o subsolo é patrimônio da União, e junto com a venda da Vale do Rio Doce entregaram as maiores minas brasileiras, as de Carajás, exploradas pelo senhor Roger Agnelli.
Renato Pompeu: A CBMM tem interesse em que não sejam exploradas as reservas de nióbio de Roraima, que estão nas terras indígenas. Mas a direita militar divulga na Internet que a demarcação contínua das terras indígenas foi feita para possibilitar a exploração do nióbio de Roraima por empresas estrangeiras.
Brizola Neto: Acho que uma questão não inviabiliza a outra. Nesse primeiro momento há essa pressão clara da CBMM para não desvalorizar a exploração do nióbio na mina que ela tem em Araxá, porque é uma exploração muito mais difícil do que a exploração que é possível hoje na Amazônia. Mas eu concordo plenamente que essa demarcação, além de atender o interesse imediato da CBMM, num futuro próximo, ela vai atender ao interesse internacional de que empresas estrangeiras se instalem ali para fazer a exploração do nióbio brasileiro.
Wagner Nabuco: Mas lá no Congresso, como é que você sente a repercussão, quem está mais para a posição sua e do PDT, quem fica mais em cima do muro, quem combate mais? Como que é isso lá?
Brizola Neto: Hoje, eu acho que é um pouco difícil você identificar dentro do Congresso, através de partidos políticos, quais são os grupos nacionalistas. Você tem hoje nacionalismo espalhado em vários partidos e, infelizmente, talvez seja a fração minoritária de cada um desses partidos com algumas exceções. Até mesmo no campo da esquerda você tem partidos que não compreendem a questão do nacionalismo, preferem estar afiliados a doutrinas externas.
Wagner Nabuco: Qual a sua posição sobre essa questão que o neto do Jango tem levantando do fato de ele ter sido assassinado. E se o Jango depois, o único presidente que nós temos que morreu no exílio, se ele recebeu honras de Estado.
Brizola Neto: Não, só houve esse processo agora.. Hoje não tenho dúvidas de afirmar que o presidente João Goulart foi assassinado por esse processo de cortes de cabeça das principais lideranças políticas de toda a América Latina pela pressão que surgiu, até dos próprios Estados Unidos a partir do presidente Jimmy Carter, que houvesse um processo de reabertura da América Latina. Houve um acordo com as ditaduras militares dos países da América Latina – Brasil, Chile, Argentina, Uruguai -, e nesse acordo ficou tratado que se cortariam cabeças, e eu tenho certeza que uma das cabeças cortadas foi a do presidente João Goulart. Olha, você tem outros exemplos, inclusive dentro do Brasil, são questionados, o próprio Juscelino, é questionado o assassinato do Letelier nos Estados Unidos, o colaborador do presidente Allende, e a morte de diversas lideranças do Movimento dos Montoneros na Argentina, dos Tupamaros no Uruguai. Digo que a própria cabeça de Leonel Brizola só não foi cortada porque ele foi avisado pelo governo do Uruguai que corria risco de vida e foi tomar asilo nos Estados Unidos, pedindo inclusive para o próprio presidente Jimmy Carter que concedesse esse asilo.
Gilberto Felisberto Vasconcellos: A cabeça dela está sendo cortada depois de morto. Agora, no Rio de Janeiro matérias disseram que o Brizola recebeu propina, num ataque de primeira página.
Brizola Neto: Na semana dos 45 anos do golpe. Eu acho que o que é interessante frisar é que o Brizola é o único político que incomoda a Globo ainda depois de morto.
Wagner Nabuco: Você, como neto, conviveu com ele na intimidade, você sabia que ele era vigiado de alto a baixo?
Brizola Neto: Quando fiz 16 anos fui trabalhar com ele, que morava na avenida Atlântica, no Rio, ao lado do Hotel Othon, e o Hotel Othon instalou uma câmera do lado do apartamento dele, uma câmera giratória, e ai ele foi lá no escritório, e ele olhou aquilo: “O que é aquilo? É uma câmera, o FMI já está ai no Hotel Othon!” Ele sabia que não era ação da ditadura, era ação imperialista.
Tatiana Merlino: A situação de o nacionalismo ter perdido a força no Brasil pode se atribuir ao fato de nós não termos mais uma burguesia nacional?
Brizola Neto: É, porque se você for analisar, a burguesia nacional, hoje, não é diferente de toda a América Latina. A burguesia nacional, hoje, é associada ao imperialismo. Só que, se a burguesia aqui de São Paulo, a burguesia de Caracas, á burguesia de Maracaibo, a burguesia de Buenos Aires é essa burguesia que é associada ao capital externo que vem nos infligindo tantas derrotas, a gente não pode esquecer que houve inúmeros projetos nacionais desenvolvimentistas que chegaram ao poder em toda a América Latina e que foram derrotados. Como que a gente vai esquecer do projeto nacional desenvolvimentista de Getúlio, como a gente vai esquecer do Perón, na Argentina, como que a gente vai esquecer do Bolívar lá atrás?
Hamilton Octavio de Souza: Deputado, neste momento quais lutas o PDT está apoiando?
Brizola Neto: No momento o PDT tem uma aliança estratégica com o governo Lula. Nós temos o entendimento que o governo Lula é um governo plural, é um governo de transição, que teve como qualidade estancar o avanço do processo neoliberal no país. Quando fomos para o governo Lula, o PDT firmou um compromisso público assinado pelo presidente da República, de que não haveria reforma da Previdência e nem reforma na Legislação Trabalhista, que era a agenda da hora, era, agenda aqui da avenida Paulista, era a agenda da Febraban, era a agenda do governo passado, inclusive tentou fazer a flexibilização das leis trabalhistas. E, nesse sentido, acho que nós conseguimos fazer a reversão dessa agenda, hoje não se fala mais em reformar a CLT, hoje qualquer segmento mais conservador tem medo em falar em reforma da Previdência, e o partido tem cumprido esse papel. Agora, indo na crise, a gente fez um enfrentamento importante que foi justamente na defesa da questão do emprego. A gente tem visto que, como o mercado não deu conta de tudo, e praticamente não deu conta de nada, é o bom e velho Estado que está salvando da bancarrota mais uma vez esse famigerado mercado. Acho que nós tivemos um papel importante exigindo uma contrapartida dessas empresas que forem ajudadas pelo Estado que, no mínimo, garantam a permanência do emprego dos seus funcionários.
Hamilton Octavio de Souza: A gente costuma, nas entrevistas da CarosAmígos, pedir ao entrevistado que fale de sua vida, onde nasceu, onde morou etc…
Brizola Neto: Nasci `em Porto Alegre, numa passagem rápida da minha mãe que saiu do Uruguai e foi a Porto Alegre justamente para que eu nascesse brasileiro. E depois do nascimento eu tive que voltar para o Uruguai, nasci no ano de 1978, foi justamente o ano em que meu avô foi expulso do Uruguai. Naquele momento minha mãe e meu Pai foram para o Uruguai, ficaram lá numa fazenda da minha avó cuidando das terras. Mas a gente passou os primeiros anos de vida no Uruguai, eu aprendi a falar em castelhano, aprendi a falar em espanhol, e claro que não por gosto, mas porque estava impedido, a família toda, de estar em solo brasileiro. E depois desse processo houve o processo de reabertura, vem a reorganização do PDT, primeira tentativa do PTB, a carta de Lisboa, nesse processo a gente ainda estava no Uruguai. É quando o meu avô retorna e escolhe o Rio de Janeiro, nós voltamos para Porto Alegre.
Gilberto Felisberto Vasconcellos: Você tem outro avô exilado…
Brizola Neto: Em 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou, o vice-presidente João Goulart estava na China retornando de uma viagem diplomática, os golpistas se articularam para impedir a posse do presidente João Goulart. Assume o poder uma junta militar. Nesse processo começa toda aquela mobilização a partir do governo do Rio Grande do Sul, do destacamento da Brigada Militar para guarnecer uma torre de rádio, e a partir daquela torre de rádio fazia a transmissão do atentado à democracia que estavam fazendo. Naquele momento, essa junta militar manda que fosse bombardeado o Palácio de Piratini, onde estava lá entrincheirado o Brizola com toda a sua família, estava lá a mulher, os filhos do Brizola, com toda a população embarricada em volta do Palácio. Os membros da junta destacaram para a base aérea de Canoas que decolassem os jatos e efetuassem o bombardeio. E ali naquela base aérea tinha um sargento, que não era brizolista, não era getulista, não era trabalhista, um sargento que era nacionalista e que foi para as Forças Armadas e jurou a Constituição. E na época, aquele sargento se insurgiu contra os comandantes da base aérea, se insurgiu contra a trinca militar, e liderou os sargentos da base aérea e furou o pneu de todos os caças, impedindo que decolassem para bombardear o Palácio Piratini. Como consequência disso, ele foi o primeiro militar a ser expulso da Aeronáutica, foi o primeiro militar a ser banido do país. Ele era piloto de avião.
Gilberto Felisberto Vasconcellos: Quem era ele?
Brizola Neto: O Daudt, capitão Daudt. Que vem a ser meu avô por parte de mãe.
Gilberto Felisberto Vasconcellos: Brizola Neto é fruto de um avô revolucionário da parte de pai e da parte de mãe, o Daudt e o Brizola.
Brizola Neto: E aí seguindo, houve o processo de reabertura quando ele decide voltar ao Rio de Janeiro. A gente primeiro vai a Porto Alegre e permanece um ano em Porto Alegre, e vem para o Rio de Janeiro. O Brizola era uma coisa proibida no Brasil. Então havia uma demanda reprimida enorme e, ao mesmo tempo, a família não sabia como estava por aqui, como que era aqui depois de 20 anos de um nome ser colocado como subversivo, criminoso, mais de mil processos movidos na Justiça, demonizado exatamente, demonizado, essa é a palavra. E aí a grande surpresa é chegar ao Rio de Janeiro e ver o Rio de Janeiro tomado por uma sede brizolista, ver o Rio de Janeiro que tinha 20 anos atrás eleito o Brizola como deputado federal mais votado da história do Rio de Janeiro, até hoje proporcionalmente. E ai quando a gente chega no Rio de Janeiro, eu estou falando a família, a gente encontra o reconhecimento e ai a gente começa a entender a grandeza do Leonel Brizola para o povo brasileiro e começa a entender o que era aquela demanda reprimida e que se expressava acima de tudo na eleição do Brizola em 82. Tinha uma frase que dizia: Tá com Brizola, ou tá com medo? E era exatamente isso que resumia aquela eleição, o mártir da ditadura militar voltava para disputar uma eleição contra os setores conservadores e reacionários.
Wagner Nabuco: E daí, você estudava?
Brizola Neto: Eu tinha cinco anos de idade, eu era novo, mas eu observava isso, e mais que isso, a gente chegou ali e você tinha aquela elite rancorosa da zona sul do Rio de Janeiro, com quem a gente convivia. A gente chegou morando na zona sul e a gente sofria aquela oposição diária daquele nicho conservador da zona sul carioca que não aceitava a chegada de alguém como Brizola. E a gente vivia ali no meio daquela contradição. Teve uma coisa que foi importante para mim e que abriu bastante a minha perspectiva de conhecer pessoas, de conhecer gente, que foi um espaço democrático que é a praia, e o Rio de Janeiro tem isso.. São Paulo, você chega aqui, a gente vinha chegando de avião, você olha e tem uma ilha de prosperidade cercada por aquele mar de periferia. No Rio de Janeiro a coisa é diferente, a coisa é entremeada, todos os bairros do Rio de Janeiro têm uma favela. Todos os bairros da zona sul carioca você tem um morro que se-coloca ali e deixa clara essa contradição. E na praia era um espaço em que todos se encontravam, os ricos, os pobres, ali eu conheci a turma do Cantagalo, ali eu conheci de fato, porque eu conhecia na teoria o que era o brizolão, mas subi o morro e conheci o que era o brizolão do morro do Cantagalo, que era um espaço de libertação daquela população, e mais do isso, o reconhecimento que aquela população tinha daquele espaço, porque nunca nenhum governante tinha dado alguma coisa de qualidade e ali se botou uma escola da mais alta qualidade. Eu comecei a ter a dimensão da importância do Brizola.
Fernando Lavieri: E no colégio você sofreu discriminação por ser neto do Brizola?
Brizola Neto: Sofri bastante discriminação. Num primeiro momento eu estudei em uma escola particular, e nessa escola particular o que havia era o pensamento da zona sul carioca, pensamento elitista, aquela elite raivosa que não suportava ver políticas públicas para pobres, que não suportava ver políticas públicas para a favela. Em muitos momentos a gente chegou a ser estigmatizado sim, como se nunca pertencesse àquilo ali, mas a gente nunca fez questão de pertencer, pelo contrário, chegou um determinado momento que o meu avô me disse: “olha, você tem que estudar em escola pública”. E foi para a escola pública que eu fui, escola pública que tinha na frente da minha casa, escola Cas-telo Novo, e que não devia em nada para o ensino da escola particular. Infelizmente, a gente sabe hoje que a escola pública está cada vez pior, não consegue mais acompanhar as instituições de ensino particulares, talvez seja mais um dos movimentos de segregação dos pobres e de reserva de mercado para os filhos da elite. Eu continuei depois os meus estudos, fiz o segundo grau em uma escola metodista lá no Rio de Janeiro e ingressei para fazer Direito, que eu não concluí, não concluí o curso de Direito, faltam dois anos ainda.
Wagner Nabuco: Como que você entrou para o embate político? Esse é o seu primeiro mandato?
Brizola Neto: De deputado federal. Eu tive um mandato de vereador, de 2004 a 2006, eu sai no meio do mandato para ser candidato a deputado federal.
Renato Pompeu Quantos votos você fez como vereador?
Brizola Neto: Como vereador eu fiz 24 mil e noventa e poucos votos e como deputado foram 62 mil e 90 e poucos votos. Pelo Rio de Janeiro. Eu vivi essa realidade que eu estava falando, de integração, aos 16 anos eu começava a conhecer o que era a grandeza do Leonel Brizola para a população, e principalmente para a populaçãomais pobre do Rio de Janeiro. Era muito interessante, porque a gente era hostilizado nesses ambientes de classe alta, como era na escola particular; quando a gente subiu o morro, a favela, era uma coisa.interessantíssima, porque eu chegava na casa das famílias, e as famílias tinham a foto do meu avô em casa e eu falava: “Que é isso!” Entendeu, as pessoas me beijavam e diziam: “Deixa eu abraçar o neto do Brizola”. E eu ficava às vezes até assustado com aquilo, eu não compreendia. E esse processo foi muito importante para a gente entender a grandeza de Leonel Brizola.
Wagner Nabuco: Deputado, e a sua base de votação reproduz um pouco a base de votação de seu avô? Ou ela mudou e você tem hoje voto na zona sul?
Brizola Neto: Tenho algum voto na zona sul, mas eu tenho uma votação muito espalhada. Eu não sou campeão de voto em nenhuma zona eleitoral, mas eu tenho voto em todas as zonas eleitorais. Não tem um único município no Estado do Rio de Janeiro que eu não tenha sido votado. A gente até entende um pouco essa lógica, a gente não trabalha a partir de currais eleitorais, a gente não trabalha a partir de assistencialismo. A gente sabe que existe um legado, a gente sabe que existe um relicário que foi construído por esses anos de luta, por essa biografia, por essa história, por essas realizações todas do Leonel Brizola. As lutas de Leonel Brizola, desde a década de 50, são as mesmas lutas que nós temos hoje.







Bacana Briza, esse texto histórico é fundamental para os jovens e os velhos que não tiveram informações do que foi descrito por você e agora passam a conhecer essas figuras tão importantes na história política nacionalista do nosso país! Rememore sempre que possível,Briza, porque mesmo nos meus quase 80 anos, não sabia de vários detalhes dessa história exposta nesse seu texto!
Brizola Neto
Meus Parabens mesmo! Sei que ainda somos o seguimentos dos ideais do tão querido Leonel Brizola. Deixou exemplos de dignidade e o respeito pela causa públicae do seu povo. Estamos sempre nesta jornada política em defesa dos oprimidos trabalhadores do Brasil. Desejando uma boa caminhada e conta aqui no Sul com o JCCalixto.
Socorro Brizola!!! Novo código Florestal, tá por dentro? Ajuda ! não precisa publicar isso, aí vai um pouco do que esta em questão, esse novo código é um grande problema para o Brasil, desde ecossistemas até para pequeno e grande proprietários rurais, apesar de acharem que não. Sem delongas, o Nassif publicou texto relevante do Aziz, aí vai:
http://www.advivo.com.br/blog/gustavo-belic-cherubine/aziz-nacib-ab%E2%80%99saber-e-o-codigo-florestal
Luciano – Aluno Biologia USP 5ºano
http://www.sbpcnet.org.br/site/home/home.php?id=1305
Congratulations to the team blog
EU SEMPRE ADMIREI O LEONEL BRIZOLA! PENSO QUE ELE CUMPRIU COM
SEU TRABLHO PARA DEMOCRATISAÇÃO DO BRASIL. ELE FOI UMA PEÇA
IMPORTANTE, NESTA ABERTURA!!
Deputado, o Serra acaba de dizer no JN que acabará com os subsidios. Irá enxugar tudo e destinar as verbas para o aumento dos aposentados, 13o bolsa familia e elevar p/R$ 600 salário mínimo. Então ele disse que vai acabar com os subsídios do plano minha casa minha vida, juros subsidiados do BNDS para o prosseguimento das obras do PAC, PROUNI etc. Não creio que entendi errado. Por favor, esclareça melhor pra mim. Penso que ele deu um tiro de canhão nos pés. Temos que explorar a fala dele ao JN.
Conheci Brizola no aeroporto de Porto Alegre, pouco antes de seu falecimento. Eu chegava de Brasilia, ele, Alceu Colares e comitiva do Rio de Janeiro. Muitos fãs e correligionários o esperavam. Ele os cumprimentava a todos cortesmente, eu pedi um abraço, por mim e por meu pai, brizoliata de carteirinha, lá em Belém do Pará. Ganhei abraço dobrado.
Testemunhei o seu carisma, ninguém respeitava o cordão de isolamento porque o HOMEM VAI CHEGAR, diziam.
Esse HOMÃO era Leonel de Moura Brizola.
“Representantes de sete partidos do campo democrático-popular e da esquerda debatem rumos e perspectivas da disputa presidencial”. Gostei pela forma como abre a reportagem de Caros Amigos, situando no campo popular e progressista, de esquerda, siglas partidárias que pretendem lançar candidatos próprios à Presidência da República e, portanto, não apenas os que se acham alinhados com os objetivos plebiscitários do Palácio do Planalto e do PSDB (incluo aqui este partido porque o governador José Serra aderiu ao “jogo de cartas marcadas” de Lula) devem ser assim considerados. E muito bem frisado em seguida: “parte da esquerda acredita que estão em jogo dois projetos: o do PT e o do PSDB”. A maioria das lideranças entrevistadas sugere a necessidade de uma campanha presidencial com a realização de debates mais amplos, que cooperem para a conquista de avanços efetivos no campo econômico, cultural, político e social do país, ao invés da mera disputa eleitoral entre os governos FHLula tendente a promover o revezamento entre petistas e tucanos no poder. Neste pensamento me incluo e entendo que o PDT deverá fazer ampla reflexão a respeito por ocasião de sua Convenção Nacional, marcada para 12 de junho, mês das convenções.
[...] Entrevistas [...]
Sou da js de concórdia SC e me orgulho muito de ser Brizolista, pois sabemos que Nos do PDT temos a certeza que quando entramos no poder faremos as mudanças sociais sem nos vender para o capital estrangeiro e acima de tudo valorizando nossos trabalhadores num todo, pois eu acredito neste partido nestas pessoas que aqui fazem com nosso a nossa historia e vamos escrever junta esta historia de luta e vitoria esta vitoria do povo sofrido do povo que é explorado e que não será mais explorado… Ou deixar a pátria livre o morre pelo Brasil…
É comovente e emplogante ler a entrevista de Antonio de Pádua Ferreira da Silva. Detalhes esquecidos e não sabidos, relembramos e sabemos agora. Peço vênia para fazer um pequeno reparo: Quem fez o registro não foi Iara Maria Vargas. Foi Ivete Vargas (dizem protegida por Golbery do Couto e Silva. Haja vista que só tinha com ela Jorge Cury um deputado de Niteroi). Parabens Antonio Pádua Ferreira da Silva. Você é um orgulho para nós trabalhistas do PDT.
Eu sou da JSPDT em CONCORDIA SC
e acho q temos competencia de governar o pais por que é so nos rever a historia do BRIZOLA e dar a cara para bater ter coragem
organizar desde seu bairro e começar a introduzir se na sociedade
td bom????????????
Como vai ser feita a condução do PDT no Estado do Rio de Janeiro?
:e o sussesso com a juventude?